Na Grécia Antiga existia uma forma de punição chamada ostracismo, que fazia parte da democracia ateniense, e tinha como consequência o banimento de um cidadão por 10 anos da cidade. Apesar de parecer algo tão longínquo, pode-se notar a presença dessa forma de punição, exclusão social, ainda hoje, todavia manifestando-se de uma maneira um pouco diferente, valendo-se do meio virtual para se concretizar.

A democracia ateniense possuía como base os mesmos princípios do que entendemos hoje como democracia, entretanto, havia algumas diferenças. Pode-se dizer que tanto o sistema ateniense quanto o nosso têm como base três pilares: isocracia (poder político igual a todos), isonomia (todos são iguais perante o sistema) e isegoria (livre direito a manifestação). No que tange a diferenças, a principal era quem possuía o poder político, que neste caso eram apenas os cidadãos, isto é, homens, filhos de pais atenienses e maiores de idade. 

Outro diferencial da democracia ateniense era a punição conhecida como ostracismo. A lei do ostracismo, segundo Aristóteles, foi criada por Clístenes1 e tinha como objetivo evitar que o poder caísse em mãos tirânicas. Então, caso algum cidadão manifestasse ou demonstrasse tais intenções, era votado na Ágora2, e, se atingisse o número de votos necessários, era este banido da cidade por 10 anos.

Contudo, a prática do ostracismo foi completamente diferente de sua finalidade teórica. Segundo Aristóteles, “Este princípio, contudo, não tem sido aplicado justamente nos Estados pois, ao invés de procurarem o bem para a sua Constituição, o ostracismo tem sido usado para beneficiar algumas facções”. Logo, pode-se inferir que apesar de ter sido uma lei feita para beneficiar a democracia, acabou operando em prol de grupos políticos, chegando ao ponto de apenas banir quem discordava do grande grupo.

O caso mais conhecido de injustiça decorrente dessa forma de punição foi o ostracismo de Aristides. Conta-se que este estava na ágora quando um outro cidadão, analfabeto, pediu ajuda para escrever o nome de quem queria ostracizar. Quando Aristides perguntou qual o nome que ele gostaria de escrever, o homem respondeu: “o de Aristides”. Surpreso com a resposta, perguntou se este o tinha prejudicado de alguma forma. Então o cidadão ateniense lhe disse “não, nem o conheço, mas estou farto de chamarem ele de justo por todos os cantos”. No fim o estadista acabou por ser banido de Atenas. 

Tendo isso em vista, nota-se certa similaridade dessa exclusão praticada na Grécia Antiga com quem discorda das ideias de determinados grupos na internet nos tempos atuais. Os maiores exemplos disso foram os famosos “cancelamentos” que tomaram conta das redes sociais este ano. Este fenômeno ocorre devido à grande quantidade de bolhas ideológicas, presentes na internet, onde vertentes políticas possuem grupos para se reunir e usam eles, também, para direcionar ataques, ofensas e boicotes contra determinados indivíduos ou ideologias. 

Além disso, a cultura do politicamente correto auxilia neste fenômeno, visto que utiliza como base uma suposta conduta correta a ser seguida e tacha todos aqueles que não a seguem. O resultado desse movimento é a rotulagem em massa de todos aqueles que não concordam e pregam a “verdade” defendida por tais movimentos. Não por acaso inúmeras pessoas consideradas “dissidentes” são tachadas de más, hipócritas e outros adjetivos ruins. Algumas práticas comuns destes que se auto intitulam “bons” são exposição, difamação e ataques virtuais, causando sérios danos à imagem da vítima. O anonimato propiciado pela internet também ajuda a fortalecer esse movimento, que em vez de argumentar e expor ideias opta por vexar e intimidar os indivíduos que pensam diferente deles. 

É evidente que esses ataques virtuais e “cancelamentos” são nocivos para a sociedade, pois além de atentarem contra a liberdade de expressão e livre manifestação de ideias, funcionam também como uma forma de coerção social, fazendo com que o indivíduo aja conforme os desejos do grande grupo e não conforme os seus. Essa coerção social ocorre devido ao elevado número de pessoas que reproduzem esse conteúdo apenas para fortalecer um falso sentimento de pertencimento e ganharem “likes”. Outro grande aliado desta coerção é o medo, visto que todos temem ser o bode expiatório do momento, então agem em consonância com os demais, assim alimentando esse ciclo. 

Neste contexto, nota-se a grande semelhança com o ostracismo grego, que no final das contas era apenas um grande grupo excluindo quem se opunha intelectualmente e politicamente. Conclui-se que esse processo de excluir pessoas que pensam diferente não passa de uma nova forma de ostracismo, o “ostracismo virtual”. E esse ostracismo virtual é muito perigoso para a sociedade e para a própria política, pois além de gerar injustiças, ele instiga um pensamento homogêneo nas redes sociais e, por consequência, em determinadas camadas da sociedade. A partir dessa homogeneização, sobrevém inúmeros problemas, mas o principal é a supressão de direitos fundamentais, como a liberdade de expressão e de pensamento, que se torna uma prática comum na internet e fora dela. 

Na realidade, os cancelamentos não passam de autoritarismos coletivos, que utilizam da influência digital e de argumentos rasos para atacar e justificar censura. Então, deve-se tomar muito cuidado para não se banalizar os atos que suprimem a liberdade de expressão, inclusive na internet, pois suas consequências são reais e perigosas. 


1 Clístenes (565 A.C – 492 A.C) foi um político ateniense, conhecido como o pai da democracia, e foi responsável por uma reforma politica e constitucional em Atenas.
2 Espaço público em Atenas, onde os cidadãos se reunião para discutir assuntos referentes a polis (política).

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