Certamente a expressão homeschooling não lhe é estranha, mas você sabe o que significa e por qual razão ela é alvo de tantas polêmicas? O Homeschooling é um regime facultativo de educação domiciliar, no qual os responsáveis pela educação de crianças e adolescentes ensinam seus filhos de casa. Essa dinâmica educacional busca ofertar outra opção de ensino aos estudantes para além da tradicional.

O formato aplicado pelo homeschooling sofre certa resistência por determinados setores da sociedade, iniciando pelos órgãos sindicais dos professores, escolas e, por fim, pelo Governo. A relutância oferecida por esses organismos está baseada na ideia de que “educação é dever do Estado”, afinal é um direito social estabelecido em nossa Constituição Federal1.

Inúmeras são as críticas feitas ao método homeschool: (i) a educação em domicílio causará problemas de socialização aos alunos; (ii) não existem meios efetivos para avaliar as crianças e adolescentes que estudam em casa; e, (iii) com o homeschooling em voga as instituições de ensino acabarão. Antes de entendermos por que essas alegações não passam de meras falácias, é importante analisarmos a realidade da educação brasileira.

Atualmente, estão vigentes em nosso país dois gêneros de instituição: escolas públicas e escolas privadas. Embora a segunda se destaque face à primeira, ambas adotam a mesma matriz curricular e metodologia em sala de aula. Ambas adotam igual divisão de tempo e conteúdo aplicado aos estudantes. Ambas recomendam os mesmos autores e as mesmas leituras, todas impostas pelo Governo. Inovação é algo quase inexistente em nosso contexto educacional. Práticas diversas das autorizadas pelo Estado tendem a não ser aprovadas e sequer implementadas pelos profissionais da educação no Brasil, a liberdade é algo desconhecido nesse setor.

Ao longo de décadas, o Ministério da Educação criou um ambiente impróprio, que não apenas desincentiva, mas atrasa o avanço educacional e tecnológico. Profissionais criativos que desenvolvem, por meio de pesquisas científicas, novas técnicas e didáticas pedagógicas tendem a não as ver em prática, dado o demasiado rigor para sua aprovação, morosidade nos tramites administrativos e ausência de recursos para sua aplicação.  Não obstante o péssimo contexto de incentivos para novas práticas na pedagogia, ainda vivenciamos o constante decréscimo nos indicadores de educação dos brasileiros. Por meio de pesquisa desenvolvida pelo Programme for International Student Assentment (PISA), podemos verificar que os níveis educacionais do Brasil são alarmantes2.

Estudos apontam que as salas de aula brasileiras contam, em média, com trinta alunos, sendo comum salas que superam estes números. O professor, ainda que pedagogicamente capacitado, é incapaz de manter o controle e dar atenção adequada a todos. É nítido que a duração pré-determinada pelo Estado não se adapta às necessidades de alunos que demonstram dificuldade de aprendizagem.

O tratamento despendido em sala de aula tende a ser o mesmo para todos, independentemente das particularidades de cada indivíduo, logo, com o passar do tempo, aqueles que não se adaptam ao sistema imposto, acabam não acompanhando o conteúdo. Por outro lado, há também determinados alunos que apresentam maiores facilidades com as disciplinas, demonstrando, inclusive, maior interesse no estudo de determinadas matérias. Estes alunos, no entanto, não podem deixar de seguir o plano de ensino determinado.

O que se verifica é um sistema educacional apático e insensível às heterogeneidades de cada pessoa, nivelando todo cidadão da mesma maneira. Podemos concluir que a educação brasileira ruiu3, pois o tempo, recurso mais caro e escasso que o profissional possui, é desperdiçado tanto em relação ao aluno em dificuldades, que acaba por desistir de acompanhar o ritmo, quanto ao mais adiantado, que se vê entediado em meio a aulas incapazes de lhe tomar mais que alguns minutos da energia e atenção direcionadas.

Estima-se que cerca de cinco mil famílias brasileiras são adeptas a modelos de ensino domiciliar, que possuí como filosofia o aprendizado através dos pais, permitindo um altíssimo grau de flexibilidade na educação das crianças, desde a escolha do método, materiais utilizados até os horários das atividades desempenhadas. Esta liberdade pedagógica é algo que não pode ser plenamente reproduzida nas instituições de ensino tradicionais. Na metodologia do homeschool o foco é a formação de indivíduos autodidatas.

A liberdade oferecida pela adoção do ensino domiciliar pode trazer ganhos imensuráveis para os estudantes, visto que poderão se especializar nas matérias que possuem mais afinidade, potencializando, desde cedo, suas aptidões mais notórias. Neste ponto, os benefícios futuros para as crianças e adolescentes são nítidos, uma vez que o mercado de trabalho exige, cada vez mais, profissionais especializados. Vemos, então, o primeiro aspecto positivo de tal dinâmica, mas não paramos por aqui.

Outro motivo muito citado pelas famílias que aderiram ao método de educação em casa é a ausência do bullying, prática ofensiva de “brincadeiras” intencionais contra crianças e adolescentes indefesos, capaz de causar sérias lesões físicas e psicológicas em suas vítimas, sendo uma constante inseparável da escola. Segundo dados coletados pelo PISA no ano de 2018, 01 em cada 03 estudantes sofrem bullying, sendo que 29% dos alunos brasileiros entrevistados relataram sofrer mensalmente algum tipo de ofensa.

Ao contrário do que os críticos do homeschooling pregam, esse novo sistema educacional não exclui a criança do convívio social. Não frequentar diariamente uma escola não significa, obrigatoriamente, que a criança se tornará introvertida, uma vez que existem diversos lugares além do ambiente escolar onde poderá socializar. Locais como parques, praças, clubes, grupo de jovens, cursos, e vários outros ambientes permitem uma amplitude maior de possibilidades para que essa criança tenha contato com diferentes pessoas, desenvolvendo laços mais fortes para além dos meramente virtuais.

É fundamental buscarmos respostas para as críticas feitas à educação domiciliar4, pois são argumentos enfraquecedores na adesão ao homeschooling. Primeiramente, sobre as formas de avaliação dos estudantes é possível implementarmos a mesma metodologia aplicada em países onde a prática já é comum, a exemplo do Estados Unidos. Lá, onde os adeptos à educação domiciliar somam 2,3 milhões de estudantes, existe um sistema de avaliação desenvolvido para acompanhar o desempenho dos alunos em comparação aos que frequentam instituições de ensino tradicionais5.

Outro aspecto controverso diz respeito à possível extinção das atuais instituições de ensino. Sobre esse ponto, não podemos esquecer que todos os setores do mercado mudaram na medida em que as demandas de seus consumidores se modificaram. A adaptação é fator intrínseco das relações de consumo. O suposto extermínio das redes de ensino pode ser facilmente comparado com o temor que assolou os motoristas de táxi em virtude da progressiva adesão dos aplicativos de transporte de passageiros.

Logo que os apps surgiram, críticas similares à educação domiciliar foram lançadas sobre as plataformas. Iriam os táxis (meios de locomoção altamente regulados pelo Estado) desaparecer? Como ficariam os trabalhadores daquele modelo de transporte, seriam todos demitidos? Nunca mais encontrariam empregos? Bem, o que se viu, definitivamente, não foi o fim dos táxis6. Tais meios de locomoção seguem entre nós, visto que ainda existem consumidores que optam por tal serviço. Segundo pesquisa realizada por Origem Destino, feita em 2017, a chegada dos aplicativos proporcionou um aumento de 424% nos meios de locomoção particular em comparação aos últimos 10 anos, sendo que os táxis tiveram acréscimo de 24% em suas corridas.7 Eis a mágica da oferta e demanda.

A adesão de aplicativos como alternativa para as pessoas se locomoverem, além da quebra do antigo monopólio dos táxis, foi, em verdade, mais uma fonte de emprego para pessoas que se encontravam desempregadas8. Atualmente, cerca de 4 milhões de brasileiros autônomos utilizam plataformas de aplicativos como fonte de renda, conforme dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas9. Outro reflexo notório foi a melhora na prestação dos serviços oferecidos pelos taxistas10, resultado direto do fomento à concorrência que os apps proporcionam.  

A adoção de meios mais modernos no transporte possibilitou um vasto ganho para toda a sociedade, incluindo os bons profissionais envolvidos na atividade até então monopolista. A mesmíssima lógica deve ser aplicada ao homeschooling. Sua adesão não objetiva e jamais causará a extinção dos meios de educação tradicionais, ao contrário, é uma maneira de incentivá-los a melhorar. É fundamental entendermos que não cabe ao Estado decidir quais métodos de ensino devem ou não ser adotados para educação dos estudantes. Proibir a adoção do homeschool significa retirar dos pais (entendidos aqui como todos aqueles que desempenham papel essencial nos cuidados das crianças e adolescentes) seu direito de escolha, sua liberdade.

A educação domiciliar, portanto, é uma resposta aos péssimos resultados obtidos com o método de ensino vigente no Brasil. Então, por quais motivos devemos continuar investindo exclusivamente em uma forma de ensino arcaica? Quem está ganhando com tamanha defasagem na educação brasileira?


[1] Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.  

[2] https://www.compareyourcountry.org/pisa/country/bra?lg=en

[3]Sobre a temática, recomendamos assistir ao documentário “Brasil: pátria educadora” produzido por Brasil Paralelo: https://site.brasilparalelo.com.br/sala-de-transmissao-a-patria-educadora/?utm_source=search_cpc&utm_medium=banner&utm_campaign=patria-educadora&utm_content=kw_google_ads_brasil_paralelo&gclid=Cj0KCQjwka_1BRCPARIsAMlUmEqM6UrCtDeQSyhCRlqrpmQ9gtGXXTRfjb3JQY_ILYmzWPfz5HebtYsaAkYyEALw_wcB

[4] (i) a educação em domicílio causará problemas de socialização nos alunos; (ii) não existem meio efetivos para avaliar as crianças e adolescentes que estuda em casa; e, (iii) com o homeschooling em voga as instituições de ensino irão acabar.

[5] http://northamericanschool.com/?page_id=147

[6] https://machine.global/o-taxi-nao-morreu/

[7]https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2018/12/12/em-sp-a-cada-4-chamados-de-taxi-3-sao-por-aplicativo-e-1-pelo-convencional.ghtml

[8]https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2019/04/28/uber-ifood-e-maisaplicativos-viram-fonte-de-renda-de-quase-4-milhoes.htm

[9] https://exame.abril.com.br/economia/apps-como-uber-e-ifood-sao-fonte-de-renda-de-quase-4-milhoes-de-pessoas/

[10]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/trabalho-e-formacao/2019/07/28/interna-trabalhoeformacao-2019,774320/taxistas-buscam-alternativas-para-se-manterem-no-mercado.shtml

Fontes: https://fabioostermann.com.br/homeschooling/
https://homeschoolingbrasil.info/o-que-e-homeschooling-educacao-domiciliar/
http://northamericanschool.com/?page_id=147
https://www.compareyourcountry.org/pisa/country/bra?lg=en

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