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Deus é liberal? – A árvore do conhecimento e a tentação totalitária de criar um éden sem liberdade

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Há uma imagem no Gênesis que talvez seja uma das mais poderosas de toda a tradição ocidental: a árvore do conhecimento do bem e do mal. Ela está no centro do jardim, não na periferia. Não é escondida de Adão e Eva. Não é inacessível. Não é protegida por muralhas, nem por soldados, nem por uma arquitetura de coerção. Ela está ali, visível, real, possível.

E é precisamente essa possibilidade que inaugura o drama da liberdade.

Deus, segundo a narrativa bíblica, cria o homem bom, cria o mundo bom, cria uma ordem anterior à queda. Mas não cria uma ordem mecanicamente obediente. Em tese, poderia tê-lo feito. Poderia ter criado uma existência na qual o bem fosse a única alternativa ontologicamente disponível ao ser humano. Poderia ter criado uma consciência incapaz de desejar o mal, incapaz de errar, incapaz de recusar. Poderia ter fabricado um Éden sem árvore.

Mas não o fez.

Ao permitir que o homem pudesse desobedecer, Deus abriu na existência o espaço da escolha. E, ao abrir o espaço da escolha, abriu também a possibilidade do pecado, da queda, da tragédia, da história e da redenção. A liberdade humana não aparece, portanto, como um detalhe acidental da criação, mas como uma dimensão constitutiva da própria dignidade do homem. O homem não é um autômato moral. Não é uma engrenagem do bem. Não é um animal domesticado pela impossibilidade do erro. Ele é livre porque pode dizer “não” até mesmo ao seu Criador.

Nesse sentido filosófico, e apenas nesse sentido, há uma provocação legítima: Deus é liberal.

Não porque Deus seja “liberal” no sentido partidário, econômico ou contemporâneo do termo. Mas porque a estrutura moral do mundo, tal como apresentada no arquétipo bíblico, pressupõe que o bem sem liberdade não é propriamente virtude. A obediência sem possibilidade de desobediência é mero funcionamento. A santidade sem risco é programação. A moralidade sem escolha é engenharia.

A árvore, portanto, é mais do que um objeto narrativo. É o símbolo da liberdade como condição do bem. Onde não há árvore, não há queda; mas também não há mérito, nem consciência, nem responsabilidade. Há apenas administração do comportamento.

É aqui que a política entra.

Todo regime totalitário, no fundo, sonha com um Éden sem árvore. Seu projeto não é apenas governar os atos externos dos homens, mas comprimir o horizonte de suas possibilidades interiores. O totalitarismo não se satisfaz em dizer ao cidadão o que ele pode ou não pode fazer. Ele deseja, progressivamente, dizer o que ele pode pensar, sentir, lembrar, desejar e imaginar.

A tirania comum proíbe condutas. O totalitarismo pretende abolir alternativas.

Por isso, George Orwell foi tão preciso em 1984. Na sociedade dominada pelo Partido, até a intimidade da consciência é sitiada. A célebre imagem segundo a qual nada pertencia ao indivíduo, exceto alguns centímetros cúbicos dentro do crânio, traduz justamente esse último reduto da liberdade humana: o pensamento ainda não confiscado. Mas a ambição totalitária é exatamente invadir esse espaço final. Não basta que Winston Smith obedeça. Ele deve amar o Grande Irmão. Não basta que se curve. Ele deve consentir. Não basta que sobreviva. Ele deve ser interiormente refeito.

Essa é a diferença essencial entre autoridade política legítima e poder totalitário. A primeira organiza a convivência humana, protege direitos, pune agressões e estabelece limites jurídicos. O segundo pretende reconstruir a alma.

Historicamente, o nazismo oferece uma das expressões mais brutais dessa lógica. O conceito de Gleichschaltung, geralmente traduzido como coordenação ou sincronização, designava o processo de nazificação pelo qual a sociedade alemã foi sendo submetida ao controle unitário do Partido Nazista, com absorção das instituições, da cultura, da juventude e da vida pública pelo poder central. O resultado era a transformação da sociedade em uma extensão do partido, e do partido em instrumento da vontade do líder.

O Führerprinzip, por sua vez, condensava a ideia de que a autoridade política se irradiava do líder supremo, exigindo obediência hierárquica e identificação entre vontade do chefe, Estado e povo. O resultado não era apenas uma ditadura administrativa, mas uma tentativa de substituir a consciência moral individual por uma cadeia vertical de comando. A pessoa já não deveria perguntar: “isto é verdadeiro?”, “isto é justo?”, “isto é bom?”. Deveria perguntar apenas: “qual é a vontade do poder?”.

Esse é o Éden sem árvore: uma ordem em que o cidadão não encontra diante de si a dramática possibilidade do bem e do mal, mas apenas a cartilha oficial. A escolha é substituída pela adesão. A consciência, pela disciplina. A moral, pela obediência.

Curiosamente, regimes potencialmente opressores quase sempre se apresentam como projetos morais. Raramente anunciam a si mesmos como simples máquinas de dominação. Ao contrário, prometem purificar a sociedade, corrigir o homem, eliminar o vício, extirpar a injustiça, reorganizar a história, curar a nação, salvar o futuro. Seu núcleo duro contém, quase sempre, uma forma exacerbada de moralismo político.

Mas esse moralismo não é verdadeira moralidade. É a moral transformada em instrumento de poder.

A moral autêntica pressupõe liberdade interior. Exige responsabilidade, culpa, arrependimento, conversão, perdão. Já o moralismo totalitário dispensa tudo isso. Ele não quer redimir o homem, mas conformá-lo. Não quer persuadi-lo, mas capturá-lo. Não quer que ele escolha o bem; quer remover todas as escolhas que não coincidam com a vontade do poder.

Por isso, a política liberal, em sua dimensão mais profunda, não é apenas uma teoria sobre mercado, propriedade privada, separação de poderes ou limitação do Estado. Ela é, antes, uma antropologia da imperfeição humana. O liberalismo parte da constatação de que o homem é falível, interessado, parcial, por vezes virtuoso, por vezes miserável, frequentemente contraditório. Justamente por isso, nenhum homem, partido, classe, burocracia, líder ou comitê deve receber o poder de definir integralmente o destino moral dos demais.

John Locke compreendeu isso ao defender que o poder político legítimo nasce limitado pela vida, pela liberdade e pela propriedade. Montesquieu intuiu o mesmo problema ao sustentar que o poder precisa frear o poder. Tocqueville viu na democracia moderna não apenas uma promessa, mas também o perigo de uma tirania da maioria sobre a alma individual. Hayek denunciou a pretensão fatal de organizar a sociedade como se a razão central fosse capaz de substituir a multiplicidade dos juízos humanos. E Mises, em outro registro, mostrou que a liberdade econômica não é mero capricho burguês, mas uma condição institucional da cooperação social.

Todos, à sua maneira, recusaram a fantasia do jardineiro absoluto: aquele que olha para a sociedade como um jardim moral a ser podado até que nenhuma planta cresça fora da simetria planejada.

A liberdade, evidentemente, tem custo. A árvore torna possível a queda. Uma sociedade livre permite o erro, a blasfêmia, a mediocridade, o mau gosto, o fracasso, a discordância, a heresia política, a recusa. Permite que homens escolham mal, desde que não violem os direitos dos demais. Permite que ideias ruins circulem e sejam combatidas por ideias melhores. Permite que a virtude seja virtude, e não mero produto da coerção.

O totalitário olha para esse risco e conclui: é preciso remover a árvore.

O liberal olha para esse mesmo risco e conclui: é preciso preservar a escolha.

Essa talvez seja a divergência fundamental. Para a mentalidade totalitária, a liberdade é perigosa demais para ser confiada às pessoas comuns. Para a tradição liberal, nenhum poder é confiável o bastante para abolir a liberdade das pessoas comuns.

A primeira quer impedir a queda pela supressão da vontade. A segunda sabe que, sem vontade, não há propriamente elevação.

É claro que nenhuma sociedade política pode viver sem lei, sem ordem ou sem algum conteúdo moral compartilhado. O liberalismo não exige neutralidade absoluta diante do crime, da violência, da fraude ou da destruição da convivência civil. A questão é outra: quem terá o poder de transformar uma visão moral particular em destino compulsório de todos? Quem poderá decidir quais árvores devem ser arrancadas da consciência humana? Quem será autorizado a redesenhar o Éden?

A resposta liberal é prudente: ninguém deve ter esse poder em grau absoluto.

A grandeza da liberdade está justamente em reconhecer que o homem não pode ser salvo politicamente contra sua própria consciência. O Estado pode conter a violência, proteger contratos, garantir direitos, punir lesões, organizar a justiça. Mas quando pretende fabricar a virtude, ele frequentemente produz apenas medo, hipocrisia e servidão.

O Éden bíblico tinha uma árvore. O paraíso totalitário, não.

E essa ausência é precisamente o seu horror. Porque um mundo sem árvore do conhecimento do bem e do mal não é um mundo sem pecado. É um mundo sem escolha. Não é o paraíso restaurado. É a prisão perfeita.

A árvore representa o risco da liberdade. Mas também representa a dignidade do homem.

Por isso, em uma sociedade livre, pecar é um direito sagrado — não no sentido de glorificar o mal, mas no sentido político mais profundo: o direito de transgredir a cartilha oficial, de recusar a ortodoxia do poder, de errar por conta própria, de não ser moralmente administrado pelo Estado.

Pois quando o poder promete um mundo sem pecado, quase sempre está oferecendo apenas um mundo sem liberdade.

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Marcos Kayan Niquelatte

Marcos é Advogado, graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). É especialista em Direito Processual Civil e em Economia com ênfase em Mercados Financeiros. No Instituto Atlantos, participa das Diretorias de Formação e de Projetos.

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