Pouco mais de um ano depois do episódio protagonizado por apoiadores de Donald Trump em que foi palco o Capitólio americano, as discussões sobre as causas, atores e conceitos envolvidos no desencadeamento do evento ainda são objetos de análise de especialistas e acadêmicos.

Ao buscar entender a invasão, é preciso renunciar às falácias e narrativas heroicas. Distanciar-se da euforia e aproximar-se da parcimônia.

Para termos uma dimensão do ocorrido, o único registro na história americana de uma invasão ao Capitólio é datado do século XIX, desencadeada durante a guerra anglo-saxônica e executada pela Inglaterra. O que ocorreu no dia 06/01/2021, portanto, é um fato extremamente carregado de significado e que estabeleceu um marco histórico de crise institucional na democracia americana em um dos maiores símbolos físicos de conquistas de direitos civis dos Estados Unidos.

Quem são os responsáveis e os motivos de tal ato? As respostas não são simples. Donald Trump, o avanço da Direita coletivista1, a realidade econômica e social deixada pelos governos anteriores, a insatisfação, a quebra do status quo. São inúmeras variáveis com ramificações expostas.

Mas alguns pontos fundamentais são importantes de serem destacados: a ascensão do “Trumpismo2” e as críticas ao progressismo, que levaram a tumultos de cunho racial generalizados e a ascensão de movimentos como Q’Anon3, alicerçados pela cultura das fake news4. Para generalizar a crise, uma pandemia. O espalhamento do coronavírus esbarrou nas políticas para o combate à irrupção, expondo um sistema falho e contraditório e que não dava conta de administrar o vai-e-volta dos lockdowns e estimular a adesão de vacinas.

Quando a campanha eleitoral para presidente nos EUA começou, o sistema público americano de votação, complexo per se, foi alvo de suspeitas de fraude, descrédito e desconfiança. Estes fatores foram ocasionando um estresse social de acirramento e polarização evidentes, culminando em atos de insurreição popular e vandalismo, até chegarmos à invasão ao Capitólio.

Tempo se passou, mas a discussão de seus efeitos ainda permanece, seja na política interna americana – refletindo-se sobre os rumos do partido republicano – quanto à nível internacional. No berço da grande democracia do mundo, a legitimidade de sua filosofia está alicerçada na livre reunião, manifestação e liberdade de expressão. Como discuti-las é o nosso desafio irrevogável.

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1 Ler: “Coletivismo de Direita: A Outra Ameaça à Liberdade”, de Jeffrey Tucker. 2018.

2 Trumpismo é “simbolizado por indivíduos às margens do sistema político estabelecido que ascendem com uma plataforma antiliberal nacionalista, que mistura mercantilismo e populismo com um viés fortemente anti-imigração” (POGGIO, Carlos Gustavo. Prefácio à edição brasileira da obra Revelando Trump, 2017). Ler também “Trumpocracy” – David Frum, autor neoconservador.

3 Q’Anon é um grupo de autor desconhecido originado no 4chan, plataforma que garante o anonimato de quem escreve. Baseia-se em premissas incontestáveis e possui muitos seguidores declaradamente trumpistas.

4 Ler: “The Death of Truth: Notes on Falsehood in the Age of Trump” – Michiko Kakutani. 2018. A autora expõe como as notícias falsas se espalharam em grande velocidade durante o governo Trump.

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