Skip to main content

Epidemia de ansiedade: qual o papel das redes sociais no país mais ansioso do mundo?

...

Vivemos uma verdadeira crise de saúde mental global. A Organização Mundial de Saúde aponta que mais de 1 bilhão de pessoas convivem com algum tipo de transtorno psicológico, sendo ansiedade e depressão os diagnósticos mais comuns. No Brasil, a realidade infelizmente não é diferente. Segundo a OMS, o Brasil  tem a maior taxa de transtornos de ansiedade do mundo, afetando 9,3% da população -cerca de 18,6 milhões de brasileiros-, desde a infância até a idade adulta. Entre as diversas causas, além de econômicas, sociais e genéticas, o uso excessivo de telas tem ganhado destaque nos últimos anos. Não é por acaso que o país lidera outro ranking alarmante: o levantamento da Bain & Company, publicado em 2025, revela que o brasileiro passa, em média, 9 horas e 13 minutos por dia online, quase 3 horas a mais do que a média mundial. Uma das possíveis explicações para este fenômeno intrínseco na sociedade, é a chamada “dopamina barata” – a estimulação constante e de baixo esforço que o uso excessivo de telas oferece, e que pode estar moldando a forma como consumimos, nos comportamos e buscamos soluções imediatas para o desconforto.

Hormônio da felicidade

A dopamina, nada mais é, um neurotransmissor produzido no cérebro. A substância é conhecida como o hormônio da felicidade que, quando liberada no organismo, causa sensações de prazer, bem-estar, motivação e satisfação. Ela é fundamental para o funcionamento do cérebro, pois molda o sistema de recompensa e ensina o sistema nervoso a agir, em outras palavras, a julgar “o que vale a pena ou não de ser feito”, segundo a Essencial Pharma. 

O hormônio pode ser liberado de diversas formas, como a conclusão de tarefas pendentes, praticar exercícios físicos e aprender novas habilidades. O esforço necessário para realizar estas atividades ativa o sistema de recompensa e faz com que o cérebro as julgue como prazerosas. Porém, os hábitos adotados a partir do uso de aparelhos móveis tendem a desregular esse sistema de recompensa. 

Aplicativos dopaminérgicos

Você já reparou no tempo que você  passa conectado na internet?  A pesquisa feita pela Bain & Company, em 2025, afirma que a média dedicada por brasileiros é de 3 horas e 37 minutos exclusivamente nas redes sociais. Apesar do número preocupante, este efeito é proposital. 

Nesse sentido, baseado no artigo publicado no Jornal da USP, o professor de Ciências Biológicas da instituição, Jackson Bittencourt, ressalta que aplicativos como Instagram, Tik Tok e X (antigo Twitter), são considerados dopaminérgicos, uma fonte infinita de conteúdos. Eles são planejados para captar a sua atenção o máximo de tempo possível. Os feeds infinitos e ininterruptos, com um fluxo incessante de informações escolhidos estrategicamente por um algoritmo que, a cada instante, aprende exatamente o que você gosta e precisa. 

Ademais, é importante ressaltar que estes algoritmos respondem a incentivos de mercado. Eles são capazes de reconhecer as tendências de mercado, e, baseado na interação e tempo passado em cada conteúdo, ele prevê o tipo de propagando ideal para que cada feed seja personalizada e com maior chance de vendas. Dessa maneira, o algoritmo, reconhecendo o comportamento e preferências de cada usuário, é utilizado pelas empresas para encaminhar propagandas estratégicas, com maior chance de assertividade, ao público-alvo certo.

Logo, o efeito é o de um caça-níquel digital: assim como em um jogo de azar, você nunca sabe se o próximo vídeo, post ou comentário vai ser recompensador. Ou seja, o algoritmo cria no usuário a necessidade de permanecer conectado. Dessa forma, a falta de previsibilidade, unida à ausência de pausas intencionais deste ciclo, é o que faz o seu dedo continuar deslizando.

Todo esse estímulo, por mais simples que pareça, provoca a liberação de dopamina sem o menor esforço, explicando, assim, o termo “dopamina barata”. 

No entanto, esse fluxo traz efeitos colaterais – quanto mais o sistema de recompensas é ativado, mais o cérebro exige por esses estímulos e, por consequência, reduz a tolerância para momentos de tédio, silêncio ou espera. O resultado é a ansiedade manifestar-se nesses momentos em que não há estímulos de telas, uma vez que o corpo, acostumado a viver em estado de alerta, sob abstinência, condena o usuário a viver ansioso.

Consumo como fuga

Quem nunca se presenteou quando estava em dia difícil? Emoções negativas costumam ser difíceis de lidar, e como forma de solução, a tendência de realizar compras não planejadas aumenta. Desse modo, seis em cada dez consumidores afirmam fazer compras por impulso na internet, confirma a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), em pesquisa de 2025. Entre as causas estudadas, 49% dos entrevistados percebem que gatilhos emocionais os levam a comprar, sendo principalmente por necessidade de recompensa e busca por alívio imediato.

Alinhado a isso, é perceptível o impacto das redes sociais no comportamento de consumo. Raramente passamos por conteúdos de influenciadores e não há publicidade, além de propagandas recomendadas pelo algoritmo dos aplicativos. Sob essa perspectiva, a pesquisa feita pela Youpix, em 2024, aponta que 80% dos consumidores já compraram produtos indicados por influenciadores. E, quando não são explicitamente publicidades, os conteúdos produzidos são, em maioria, relacionados a novas compras. O resultado disso é a sensação de que nada do que temos é suficiente, que sempre falta algo ou, até mesmo, o que vemos pelas telas é sempre melhor. 

Assim, o que assistimos nestes aplicativos gera um ciclo de: sentir-se mal, abrir alguma rede social, ver diversos conteúdos sobre novos produtos, comprar o que – geralmente – não precisava, o vazio emocional é preenchido por alguns momentos e, depois, retomam ao estado inicial.

Nesse momento, enquanto passamos por este ciclo, dentro do nosso cérebro, o sistema de recompensas  é, outra vez, desregulado. A compra produz um pico de dopamina, porém totalmente imediata. A sensação de alívio e bem-estar duram poucos minutos e, na sua ausência, a ansiedade faz-se presente, pois a busca por alívio e a frustração causam, por consequência, a procura incessante pelo preenchimento do vazio emocional. 

Rompendo um ciclo

Diante deste cenário, nota-se que as redes sociais influenciam a relação do usuário com a própria saúde mental. Infelizmente, reconhecer esse padrão de comportamento, por si só, não resolve a ansiedade, entretanto, pode mudar a pergunta que fazemos sobre ela. Ao invés de “por que eu não consigo parar”, talvez a pergunta certa seja “o que foi planejado, propositalmente, para que eu não conseguisse”.

Ainda por cima, vale citar que, apesar da influência, os usuários permanecem com o poder de escolha, ainda que passem por vieses comportamentais. Portanto, faz-se necessário utilizar o algoritmo a seu favor. Programar suas redes sociais com conteúdos relevantes e intelectualmente enriquecedores pode ajudar a reduzir a quantidade de conteúdos negativamente estimulantes. Isso possibilita exercer autonomia sobre o que consumimos na internet e passar a utilizá-la de maneira consciente. 

Como efeito da mudança consciente de comportamento nas redes sociais, podemos reprogramar, aos poucos, o sistema de recompensas do nosso cérebro. Pois, dessa maneira, temos acesso a informações sobre este tema, formas de solucionar e mais auto responsabilidade sobre o tempo gasto na internet, o que, por consequência, pode diminuir os sintomas de ansiedade -alinhado a acompanhamento médico, quando necessário- e reduzir os índices de compras impulsivas. Assim, torna-se viável deixarmos de ser uma sociedade escrava dos próprios aparelhos.

...

Sem comentários por enquanto!

Seu endereço de email não vai ser publicado.