[Artigo publicado originalmente no site do Mises Institute. Disponível em: https://mises.org/blog/how-central-banks-enable-money-creation-process]

De acordo com os livros-textos tradicionais de economia, o sistema monetário atual amplifica as injeções monetárias iniciais. A história popular segue da seguinte forma: se o banco central injeta $1 bilhão na economia e os bancos precisam ter uma reserva de depósito de 10%, isso fará com que o primeiro banco empreste 90% destes $1 bilhão. Os $900 milhões, por sua vez, acabarão no segundo banco, que emprestará 90% dos $900 milhões. Os $810 milhões acabarão em um terceiro banco, que por sua vez, emprestará 90% dos $810 milhões, e assim por diante.


Consequentemente, a injeção inicial de $1 bilhão se tornará $10 bilhões (i.e., a oferta monetária será expandida por um múltiplo de 10). Note que nesse exemplo o banco central ativamente iniciou a injeção de $1 bilhão, que por sua vez os bancos ampliaram para $10 bilhões.


Contudo, hoje isso tudo faria muito sentido dado que os bancos centrais do mundo não tem metas de oferta monetária mas, na verdade, estabelecem metas para a taxa de juros overnight como a dos federal funds nos Estados Unidos ou a call rate [taxa de call] do Japão. Adicionalmente, em algumas economias como a da Austrália, os bancos não são compelidos nem a ter reservas de depósitos. Certamente, então, todo o modelo multiplicador dos livros-texto deve ser suspeito.


De fato, economistas da Escola Pós-Keynesiana de Economia (PK) expressaram suas dúvidas em relação à validade desse enquadramento popular. Na estrutura monetária atual, eles sustentam, o papel do banco central é garantir que o nível de dinheiro no mercado de moeda esteja em consonância com a meta da taxa de juros.

Por exemplo, se em um determinado dia a absorção de dinheiro pelo governo excede seus desembolsos, isso leva a uma deficiência de dinheiro no dia. Para prevenir uma competição acirrada por dinheiro no mercado de moeda, e um subsequente aumento na taxa de juros overnight, o banco central deve injetar uma quantia apropriada de dinheiro para manter a taxa de juros na meta. Note que aqui o banco central está executando um equilíbrio, ou ao menos assim é dito.


A Escola PK mantém que, ao contrário do popular modelo de multiplicador de moeda, bancos centrais não visam ativamente a injeção de moeda com o objetivo de influenciar dados econômicos – assim como vimos, o banco central está apenas buscando manter o mercado de moeda bem balanceado.

Na verdade, é dito, a história do multiplicador dos livros-texto é uma ficção impossível. É sustentado que a injeção de reservas monetárias pelo banco central com o objetivo de aumentar o ritmo da expansão de crédito vai criar reservas em excesso, o que por sua vez pressionará a taxa de juros overnight para zero quase instantaneamente.

Por essa lógica, pode parecer que o banco central não tem nada a ver, ao menos diretamente, com a expansão da oferta monetária. (Na verdade, a maioria dos banqueiros centrais concordaria com essa afirmação). A fonte chave da expansão monetária são os bancos comerciais que, por meio de uma expansão nos empréstimos, colocam em movimento uma expansão na oferta monetária. Para os economistas pós-keynesianos, os passivos dos bancos comerciais são vistos como o dinheiro primário usado por não-bancos.

A demanda por empréstimos somada à propensão dos bancos a emprestarem determina a quantidade de empréstimos e, portanto, depósitos criados. Como de praxe na lógica keynesiana, a demanda dirige a oferta [investimento gera poupança].

Por conseguinte, a oferta de empréstimos nunca é dependente da demanda. Bancos ofertam empréstimos simplesmente porque alguém está propenso a tomar um empréstimo emitindo uma promessa de pagamento ao banco em troca. Para concluir, então, de acordo com a PK, a força que rege a expansão de crédito bancário e, portanto, a expansão da oferta monetária é um aumento na demanda por empréstimos – e isso não tem nada a ver com o banco central.

O multiplicador de moeda é um mito ou uma realidade?

Superficialmente, faz sentido concluir que as políticas do banco central são de natureza passiva – o banco central somente visa manter o mercado de moeda em equilíbrio. Uma investigação mais cuidadosa disso tudo, no entanto, revela que a dita passividade do banco central é um termo impróprio. Na realidade, bancos centrais estão muito mais para ativos do que passivos.

De fato, sem a atividade do banco central seria impossível aos bancos comerciais expandir os empréstimos e dar início ao processo multiplicador (a criação de dinheiro “do nada”).

Digamos que, por um motivo qualquer, bancos estão experimentando um aumento na demanda por empréstimos. Além disso, assumamos que a oferta de fundos emprestáveis permanece constante. De acordo com a PK, bancos facilitarão esse aumento. As contas-correntes dos tomadores de empréstimos aumentarão. Obviamente, esses novos empréstimos provavelmente serão usados em várias transações.

Depois de algum tempo, os bancos terão de descontar seus cheques, e é aqui que os problemas podem ocorrer. Alguns bancos descobrirão que para descontar seus cheques serão forçados a vender ativos ou a tomar empréstimos de outros bancos (lembre que a disponibilidade de fundos emprestáveis se mantém constante).

Obviamente, tudo isso pressionará para cima as taxas de juros do mercado de moeda e, por sua vez, toda a estrutura das taxas de juros. Juros mais altos provavelmente forçarão os tomadores marginais de empréstimo para fora do jogo. Em adição, alguns bancos se tornarão insolventes pois não poderão honrar suas dívidas. Por fim, isso colocará uma pressão para baixo nos empréstimos bancários, o que por sua vez irá contrabalancear a expansão de crédito inicial.

Para prevenir o aumento das taxas overnight acima da meta de juros, o banco central será obrigado a bombear dinheiro. Uma vez que o banco central bombeia dinheiro para manter as taxas de juros a uma determinada meta, ele, nada verdade, dá sinal verde ao processo de multiplicação de moeda (a criação de dinheiro “do nada”).

Esse empréstimo [do banco central aos bancos comerciais] não pode ser rotulado como passivo – na verdade é bastante ativo. Novamente, com objetivo de proteger a meta da taxa de juros, o banco central é obrigado a injetar moeda. Nesse sentido, o resultado conceitual retratado pelo modelo multiplicador permanece intacto aqui. A única diferença é que os bancos iniciam o processo de empréstimo, que então é acomodado pelo banco central.

Segue, pois, que o chamado multiplicador, ou a expansão de crédito “do nada”, não pode emergir sem o apoio do banco central.

Num livre mercado, se um banco em particular tentar expandir o crédito sem reservas de um emprestador genuíno – i.e. tentar incorrer na prática de reservas fracionárias – ele corre o risco de não conseguir cumprir com seus compromissos de pagamento, o que aumenta o risco de insolvência.

Além disso, deve ser percebido que, em um livre mercado, a probabilidade de um banco ser “pego” ao praticar reservas fracionárias será alta, dado que existem muitos bancos em competição.

À medida que o número de bancos aumenta, e o número de clientes por banco diminui, as chances de que tais clientes gastarão seu dinheiro em bens de indivíduos com contas em outros bancos aumentará. Isso, por sua vez, aumentará os riscos de um banco que pratica reservas fracionárias não conseguir honrar seus compromissos de pagamento.

Da mesma maneira, à medida que o número de bancos em competição diminui – isto é, o número de clientes por banco aumenta – a probabilidade de ser “pego” praticando reservas fracionárias diminui. No caso extremo, onde só existe um banco, tal banco pode praticar reservas fracionárias sem medo algum de ser pego, por assim dizer.

Num livre mercado, portanto, sem o banco central e com um número razoável de bancos comerciais, o fato de que bancos precisam honrar seus pagamentos é provavelmente um impedimento suficiente para a prática de reservas fracionárias.

Conclusão

Podemos, então, concluir que é irrelevante para o processo multiplicador se o banco central tem uma meta para a quantidade de moeda ou uma meta para a taxa de juros. O que importa aqui é que o banco central está sempre pronto para acomodar a expansão de crédito “do nada” feita pelos bancos comerciais.
Sem o apoio do banco central, a probabilidade de que um processo multiplicador que se sustente ocorra é quase zero – consequentemente, o multiplicador de moeda não é aplicável em uma economia genuinamente de livre mercado.

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