Autoras: Ornella Di Lorenzo – Conselheira do Instituto Atlantos e Thamires Marchetti – Coordenadora do Instituto Atlantos.

   Territórios: a história do poder passa necessariamente pela disputa de espaço geográfico. Nada consegue gerar desdobramentos tão visíveis nas questões relacionadas à economia e política quanto o avançar de tropas militares em direção a uma região. A guerra e a disputa territorial são parceiras obscuras que, quando utilizadas como ferramentas por um estado centralizado e autoritário, levam à perpetuação generalizada de conflitos. Rothbard apontava que: 

Em uma guerra, o poder do estado é levado ao extremo, e sob os slogans da “defesa” e da “emergência”, ele pode impor uma tirania ao público que, em tempos de paz, enfrentaria franca e aberta resistência. (ROTHBARD. A Anatomia do Estado, 1974)

   O Leste Europeu protagoniza, neste momento, um conflito armado desproporcional advinda da tirania de Putin e do sentimento de ódio ao ocidente, perpetuado nos discursos ideológicos do seu governo ortodoxo e autocrático. As justificativas que atribui à invasão parecem inúmeras. Putin centraliza as tomadas de decisões na sua figura, testando até onde vão os limites e a complacência do ocidente em relação às suas investidas. Fato é que, para além das questões superficiais que desencadearam a guerra e que parecem, na realidade, serem muito mais uma “janela de oportunidade” para a Rússia justificar suas ações – tropas da OTAN, desmantelamento do Império russo pós-URSS -, há alguns pontos conceituais que precisam ser abordados neste artigo. 

   A guerra de Putin é a mais impopular dos dois últimos séculos – o que fica claro com o avançar dos dias é que o autocrata está fora de qualquer entendimento razoável da realidade: ao mesmo tempo em que ele cerceia a informação, também sofre sanções econômicas que levarão ao colapso do rublo, a moeda russa. Putin não tem o apoio total da população e vem perdendo cada vez mais o amparo de magnatas e oligarcas russos. Seu posicionamento é baseado em uma doutrina incapaz de aceitar as dinâmicas atuais de globalização e, em última análise, há um desejo intrínseco de dilacerar os pressupostos culturais contidos em uma sociedade próspera. Putin tem um “guru”, discreto e bem articulado: Alexandr Dugin. Em seu livro “A Quarta Teoria Política” (2009) – (“QTP”) a argumentação contra os valores da modernidade é o carro-chefe da teoria, parecendo haver um claro ressentimento nas suas proposições. 

   Para Dugin, a QTP irá superar o status quo do liberalismo (a 1ª teoria) ao passo que também desmantelará outras teorias modernas como o comunismo (2ª teoria) e o fascismo (3ª teoria). É explícito o quanto esta tese serve aos interesses de expansão eurasiano de Putin – a crítica ao liberalismo,  à globalização e à pautas identitárias demonstradas na teoria de Dugin norteiam não um posicionamento de defesa da volta de algo que, a partir do sentimento de nostalgia, parece ter se perdido, mas sim formula uma nova teoria que seja capaz de superar, unilateralmente, o status quo do liberalismo moderno. 

   Os horrores da guerra nos levam a acreditar que teorias liberais e teorias de Relações Internacionais, como a Teoria da Paz Democrática, parecem ter colapsado. Contudo, não abandonemos o liberalismo ao primeiro sinal de perigo. Longe disso, afirmamos e resgatamos as suas soluções diplomáticas, seus princípios de cooperação e de soberania, como um dever moral ao qual, por meio da razoabilidade, sejamos capazes de perceber se tratar da teoria mais sensata e que não pode ser esquecida no meio de suas crises práticas.

   Vale lembrar que o liberalismo, como visão de mundo, estruturou as principais instituições existentes no mundo moderno, sendo a democracia e o estado de direito uma das suas heranças mais basilares. Isso porque, a tradição de pensamento liberal, ao contrário do que muitos dizem atualmente, não preocupa-se apenas com o livre mercado, mas também com o respeito à propriedade privada, o direito à vida e, principalmente, à paz. 

   Valores estes que são dilacerados na presença da guerra e que cotidianamente os jornais relatam a respeito da invasão na Ucrânia.

   À medida que as empreitadas russas totalitárias avançam, mais observamos o fim dos valores liberais. O horror gerado pela guerra não põe em cheque apenas a vida de milhares de civis, como também ameaça a herança dos princípios liberais em solo ucraniano, seja pela violação da propriedade privada, pela instauração do caos, pela máxima intervenção estatal ou pelo completo desrespeito aos direitos individuais.

   O que acompanhamos hoje é a invasão de um território legítimo por um governo totalitário, que desrespeita tratados internacionais e que censura todos que tentam denunciar as atrocidades cometidas em prol de um “governante” megalomaníaco. Não à toa o Estado Ucraniano, no primeiro dia de invasão russa, compartilhou em sua conta oficial do twitter uma imagem de Hitler acariciando Putin. Qualquer semelhança com as guerras passadas, infelizmente, não é mera coincidência.

   Para finalizar, é imprescindível relembrarmos a passagem de Mises a respeito de conflitos armados:

(…) não é a guerra, mas a paz a geradora de todas as coisas. O que capacita a humanidade a progredir e distingue os homens dos animais é, tão somente, a cooperação social. Só o trabalho constrói: cria riquezas e, por meio delas, deita os fundamentos externos para o crescimento interior do homem. A guerra apenas destrói: não pode criar.  (MISES. Liberalismo, 1927)

   Por essas razões, atreladas aos princípios reinantes do liberalismo, é o que torna tal visão de mundo longeva e vital para o convívio harmônico entre as nações. Inevitável e urgente. ♦

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui