Recentemente, o presidente americano (sim, americano e não
estadunidense, uma vez que não somos republicafederativenses), através de
seus comunicados, popularizou o termo “vírus chinês” para se referir ao novo
Coronavírus. Nesse sentido, antes de começar esse texto, faço questão de
apontar que não compartilho da visão xenófoba e nacionalista do referido
mandatário que, mesmo presidindo um dos países mais relevantes para a
tradição do pensamento liberal, acabou por interferir na inciativa privada –
confiscando bens essenciais para o combate à pandemia encomendados por
outros países e fazendo uso do Defense Production Act, que basicamente
coloca o governo federal no banco do motorista da indústria americana.

Entretanto, faço uso dessa mesma terminologia para endereçar um vírus
da mesma nacionalidade do COVID-19, mas de natureza distinta. É um vírus
que vem se alastrando pelo globo em semelhante proporção e sem o qual
sequer teríamos que enfrentar o COVID-19, pelo menos não em condições tão
desfavoráveis. Estou me referindo ao vírus do autoritarismo.
Ainda que conhecida de longa da data, a censura apresentou um novo
epicentro na China, onde desde 30 de dezembro de 2019 a busca por
informações sobre o Coronavírus nas redes sociais vem sendo administradas
minuciosamente pelo partido comunista chinês. As buscas por “Li Wenliang”,
por exemplo, foram completamente censuradas no país.

Para quem não conhece, Li Wenliang foi o primeiro médico a denunciar
o potencial pandêmico do COVID-19 e que, posteriormente, foi obrigado pelo
governo chinês a assinar um termo no qual reconhecia que as informações que
prestou à sociedade seriam “falsas”. Infelizmente, Li faleceu justamente do
COVID-19 no dia 6 de fevereiro, antes mesmo que pudesse ver a verdade de
suas palavras se cristalizar no mundo.

Em todo o caso, esse segundo vírus chinês se espalhou pelo mundo de
maneira acelerada e vem apresentando sintomas importantes em diversos
países, como as multas para fakenews, em países como o Egito e Rússia, e os
assaltos a fábricas como o perpetrado pelo Governador de São Paulo, João
Dória. É difícil não observar esses sintomas no Brasil, onde parece que
qualquer coisa que se assemelhe à estrutura de um Estado de Direito é jogada
na lata do lixo no primeiro sinal de adversidade.

Temos chefes do executivo que, por decreto, decidem de maneira
arbitrária e obscurantista o que deve ou não abrir, sem qualquer explicação
técnica para embasar as suas decisões sobre quais atividades figuram como
“essenciais” para a sociedade, além de uma casta privilegiada de funcionários
públicos que sequer percebem as consequências desse cenário em seus
vultuosos vencimentos e, por fim, mas talvez ainda mais preocupante, um povo
leniente pelo medo. A recessão econômica e o desemprego, sem sombra de
dúvidas, também aumentam a mortalidade da população, especialmente nos
grupos mais vulneráveis da sociedade – realidade que parece imperceptível
para alguns defensores do home office universal.

Sinto informar, mas pedreiros, padeiros, porteiros, eletricistas, gesseiros,
jardineiros e tantos outros ofícios não podem ser feitos do conforto da casa.
Segundo dados de um estudo da FIOCRUZ, FGV e Imperial College, publicado
na revista Lancet Global Health, a onda de desemprego entre 2012 e 2017 no
Brasil causou um excesso de mortes de 31.415 vidas.

Não há dúvidas de que medidas sanitárias devem ser tomadas, podendo
até se cogitar um lockdown horizontal, mas essas decisões não podem ser
tomadas de maneiras levianas, lançando-se mão de falsas dicotomias como
“primeiro a vida e depois a economia” para se criar mais um (como se não
tivéssemos o suficiente) sentimento de polarização. Mais do que nunca, o
remédio do liberalismo se mostra imprescindível, não só no combate ao
COVID-19, mas para demonstrar que se trata de um problema multifacetado e
para combater o autoritarismo que vem sendo permitido pela sociedade em
troca de um falso sentimento de segurança.

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