Hoje, Juan Domingo Perón, se vivo estivesse, completaria 125 anos.

Perón nasceu na Província de Buenos Aires em 8 de outubro de 1895, tendo entrado na escola militar e seguido nessa carreira até o posto de Coronel. Foi graças a este passado, tão idêntico a outros líderes, que iniciou a sua carreira política.

Em 1943, Perón fez parte do grupo militar que derrubou o governo civil argentino – grupo este que perseguia comunistas e sindicatos – tendo ascendido politicamente e sido nomeado Secretário do Trabalho e Segurança Social. Nesta posição, organizou movimentos sindicais e estruturou agremiações que se tornariam sindicatos dominantes – a preocupação do regime que Perón compunha era de que se os trabalhadores continuassem desorganizados, poderiam ser facilmente cooptados pelo comunismo.

Perón não apenas destacou-se como um árduo defensor de tribunais trabalhistas, como também um célebre populista da América Latina. Não por acaso mostrava-se nacionalista, anticapitalista e ferrenho apoiador da justiça social. Entre suas pautas, conseguiu aprovar e estender a todos os trabalhadores o direito às verbas rescisórias e sistema de aposentadoria, conseguindo, assim, ascender à vice-presidência.

Foi graças a essas pautas que caiu nos encantos dos sindicalistas e trabalhadores que se reuniram em sua defesa e exigiram sua liberação quando em outubro de 1945 foi destituído do seu cargo por um golpe cívico-militar. No dia que foi posto em liberdade, discursou para uma multidão anunciando os planos de eleição.

No seu primeiro mandato como presidente (de 1946 à 1952), a Argentina, assim como a economia mundial, ainda se recuperava dos reflexos do Crash de 1929, diminuindo a demanda por commodities e prejudicando a globalizada economia argentina. Embora o país possuísse reservas cambiais, garantidas durante a Segunda Guerra Mundial, Perón optou pela nacionalização de “setores estratégicos” como, por exemplo, bancos, ferrovias e companhias de eletricidade.

À época, havia um paralelo brasileiro, Getúlio Vargas, igualmente militar, tendo participado de golpes e se estruturado com base no apoio de movimentos sindicais que ajudou a organizar. Os traços populistas vinculados ao trabalhismo da época também dialogavam com o fascismo e o autoritarismo, tendo se utilizado do Estado para controlar os sindicatos e evitar greves contrárias ao regime.

Lembre-se que a Argentina ostentava posição de prestígio econômico internacional até o final da Segunda Guerra Mundial, disputando posições com países como França e Alemanha, sendo considerado o país mais rico da América do Sul (posto que recentemente foi ocupado também pela Venezuela, diga-se de passagem).

Perón subverteu a lógica da constituição liberal da época e envolveu-se ativamente com reinvindicações trabalhistas, criando o equivalente argentino ao 13º salário e salário mínimo. Seus dois primeiros mandatos foram marcados pela estatização de empresas, pelo nacional desenvolvimentismo e por políticas de educação e saúde públicas. Por outro lado, Evita Perón, sua esposa, conseguiu avançar com o sufrágio feminino e garantindo não só a liberdade política, mas a igualdade de direitos políticos.

Boa parte das suas pautas, a exemplo do congelamento dos preços de aluguel, tabelamento de preços, criação de licenças, férias remuneradas e aumentos salariais artificiais, visavam resultados de curto prazo. A expansão do assistencialismo argentino ignorou por completo regras básicas da economia de livre mercado, a este exemplo somam-se os esdrúxulos aumentos salariais e congelamentos de preços que desprezaram os pressupostos de oferta e demanda, originando a tão conhecida inflação.

Ao exemplo de Getúlio, Perón não só controlava os sindicatos e a narrativa por eles utilizada, como também buscava neutralizar seus opositores. Além disso, o populista argentino tentou submeter a Constituição do país aos interesses do governo, violando a norma basilar de um Estado Democrático justamente em detrimento da nação e povo que jurou defender.

No seu segundo mandato (1952-1955), aprovou uma alteração permitindo o divórcio e eliminando isenções às instituições religiosas, fazendo com que dois grupos que lhe apoiavam desembarcassem do governo: a igreja e o exército. Acabou sendo deposto e se exilando na Espanha, de onde continuou influenciando a política argentina.

Durante seu exílio, denotando não só o caráter populista, mas também fisiológico[1] do que veio a ser chamado posteriormente de “Peronismo”, respondeu a um repórter que 30% dos argentinos eram radicais (liberais), 30% eram conservadores, e outros 30% seriam socialistas e, ao ser indagado acerca de quantos seriam os peronistas, esclareceu: “peronistas son todos”.

Sua herança política foi disputada e dividida entre Carlos Menem (filiado ao partido de Perón), responsável por reformas liberais e privatizações, e Nestor Kirchner, que estatizou empresas, bloqueando a saída e entrada de capital do país.

Recentemente, Maurício Macri tentou obter apoio político ao inaugurar uma estátua de Perón logo no início do seu mandato, mas quem emplacou o apoio dos peronistas foi a chapa de Alberto Fernández e Cristina Kirchner, que simbolizaria, paradoxalmente, o peronismo essencial (representado por Cristina) e sua autocrítica (representada por Fernández que abandonara o governo Kirchnerista anos antes).

O Peronismo, o Varguismo e o Fascismo possuem semelhanças, mas somente o primeiro foi responsável por sucessores até hoje.

Ironicamente, o próprio Perón não conseguiu definir um campo político para a sua ideologia, tendo referido em discursos da sua vida ser algo que ou se sente ou não se sente, uma questão de coração e não de cabeça, e estabelecendo alguns pontos como a busca por uma maior igualdade e distribuição de riquezas. Houve vezes que discursou contra os oligarcas da época, jamais tendo tomado atitudes efetivas para acabar com suas regalias, mas garantindo muitos aplausos de quem o acompanhava.

Após o exílio, já casado com sua terceira esposa, Isabel Perón, chegou a assumir um terceiro mandato como presidente, tendo sua esposa como vice, mas falecendo pouco tempo depois, garantindo provisoriamente a presidência a Isabel tão somente para que essa pudesse profetizar o inevitável: a verdadeira herdeira do casal é a própria nação argentina – e a sua derrocada.

A Herdeira de Perón fez escola na América do Sul, tendo sido ironizada por Simon Kuznets (Prêmio Nobel de Economia) que dividiu os países em 4 categorias: desenvolvidos, subdesenvolvidos, Japão e Argentina – essa última como a única até então a conseguir sair da posição de país rico para país pobre, e que certamente deve ter inspirado a Venezuela e outros tantos governos brasileiros que insistem nas mesmas práticas de Perón

A sucessão do fisiologismo inaugurado por Perón avançou as fronteiras da América Latina e, nos diversos países que compõe esse eixo, não foram poucos os governos e presidentes que usaram a abusaram de políticas populistas, as quais, em grande parte das ocasiões, devastaram a economia de suas sociedades.

No entanto, mesmo após inúmeros episódios de políticas populistas fracassadas espalhadas pela América do Sul, nossa nação segue insistindo em tais práticas, esperando que milagrosamente resultados diversos aconteçam.  Infelizmente, percebe-se que a herança referida por Isabelita não era uma profecia, mas sim uma praga maldita que segue permeando nosso continente.


[1] O fisiologismo político aqui é justamente pela ausência de uma ideologia definida para o que seria o Peronismo, o próprio Perón era anticomunista e anticapitalista, defendia um “capitalismo” de Estado, com obras e serviços públicos. Nessa entrevista, entende que os 3 maiores grupos políticos da argentina (liberais, conservadores e socialistas) seriam todos representativos do Peronismo.

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