
Nas últimas semanas, a notícia do corte de financiamentos (grants) para universidades americanas, especialmente voltados a estudantes internacionais, acendeu o alerta em círculos acadêmicos e econômicos ao redor do mundo. Medidas que visam restringir subsídios ou bolsas para não-americanos são apresentadas, por setores do governo, como formas de conter gastos públicos e priorizar os cidadãos nativos. No entanto, sob uma ótica liberal, o resultado prático dessas políticas é um retrocesso estratégico que compromete a liberdade de circulação de talentos, a inovação científica e a própria posição dos EUA como potência acadêmica global.
Durante décadas, os Estados Unidos lideraram a formação de cérebros do mundo inteiro. Estudantes altamente qualificados deixavam seus países para estudar em Harvard, MIT, Stanford ou Berkeley — e não apenas absorviam conhecimento: produziam ciência, fundavam startups, criavam empregos, geravam riqueza. A liberdade de atrair e reter mentes brilhantes sempre foi um dos motores da supremacia americana em tecnologia, pesquisa e empreendedorismo. Cortar esse fluxo com base em uma visão restritiva de interesse nacional é ignorar o valor estratégico da imigração qualificada.
Os grants, ao contrário do que muitos imaginam, não são simples “doações estatais”. Eles são investimentos em capital humano , talvez o ativo mais valioso do século XXI. Ao financiar a formação de estudantes estrangeiros, os EUA estavam, na prática, comprando inovação futura, consolidando redes internacionais de influência e estimulando um ciclo virtuoso de produção científica. Com os cortes, perde-se a capacidade de atrair talentos que, diante da falta de apoio, podem optar por países concorrentes como Canadá, Reino Unido, Alemanha ou Austrália , todos com programas agressivos de atração de pesquisadores e estudantes.
Do ponto de vista migratório, o impacto é ainda mais perverso. A narrativa de que “não devemos pagar pelos estrangeiros” ignora que grande parte desses estudantes deseja permanecer nos EUA após a formação — contribuindo com impostos, criando negócios e alimentando ecossistemas de inovação. Impedir sua entrada ou dificultar sua permanência não reduz custos — reduz a produtividade futura da economia. É um erro de cálculo que coloca ideologia protecionista acima da lógica econômica.
Além disso, essa postura vai na contramão dos princípios que sustentam uma ordem liberal: liberdade de movimento, mérito, abertura internacional e respeito ao indivíduo, independentemente de sua origem geográfica. O sistema americano, com todos os seus defeitos, relativamente,sempre funcionou como um ímã de talentos porque oferecia justamente isso: a promessa de que o conhecimento seria reconhecido e recompensado, não importa de onde você viesse. Ao fechar as portas, o país manda um recado oposto.
Há, evidentemente, espaço para discutir critérios, eficiência e prioridades orçamentárias. Um liberalismo responsável não defende gastos irrestritos, mas sim investimentos racionais com retorno comprovado. E os dados mostram que estudantes internacionais geram bilhões de dólares por ano para a economia americana, não apenas por meio de mensalidades, mas por meio de consumo, aluguel, pesquisa, patentes e atividade empresarial. Cortar seus meios de acesso às universidades é, portanto, estrangular um dos canais mais eficazes de crescimento econômico espontâneo e descentralizado.
Num mundo cada vez mais competitivo, a liberdade de atrair cérebros é tão importante quanto a liberdade de empreender. E essa liberdade começa nas universidades. Ao eliminar grants e travar a mobilidade de estudantes não-americanos, os Estados Unidos abrem mão de uma vantagem comparativa construída ao longo de décadas — e o fazem, tragicamente, em nome de um nacionalismo fiscal de curtíssimo prazo.
O liberalismo não é apenas uma defesa do mercado — é uma defesa do indivíduo. E quando se nega a um jovem talentoso a chance de estudar, contribuir e permanecer livremente num país que diz valorizar o mérito, o que se viola não é apenas uma política de educação, mas o próprio espírito de abertura que fez da América uma referência mundial.

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