
A história econômica da Coreia do Sul desafia explicações simplistas. De um lado, Samsung, Hyundai, LG e SK tornaram-se empresas globais, integraram o país às cadeias internacionais de valor e ajudaram a transformar uma economia pobre do pós-guerra em uma potência industrial e tecnológica. De outro, esses conglomerados cresceram em estreita conexão com o Estado, beneficiando-se de crédito direcionado, garantias públicas, proteção e relações privilegiadas com a burocracia.
A tese deste artigo é que os chaebols foram decisivos para a industrialização sul-coreana, mas não constituem um exemplo puro de empreendedorismo de mercado. Seu sucesso resultou de uma combinação ambígua: houve descoberta empresarial, investimento, inovação e competição internacional, mas também houve intervenção seletiva, concentração de poder econômico e rent-seeking. A partir da Escola Austríaca, a melhor descrição é a de um capitalismo parcialmente competitivo e parcialmente de compadrio.
Chaebol é o nome dado aos grandes grupos empresariais sul-coreanos, normalmente controlados por famílias fundadoras e organizados em diversas empresas afiliadas. Samsung, Hyundai, LG e SK são os exemplos mais conhecidos. Eles atuam em setores que vão de eletrônicos e semicondutores a automóveis, química, energia, telecomunicações e construção.
Não se trata apenas de empresas grandes. A característica relevante é a combinação entre diversificação setorial, controle familiar, relações financeiras entre afiliadas e influência sobre decisões econômicas. A estrutura permitiu que os grupos mobilizassem capital e entrassem rapidamente em novos mercados. Ao mesmo tempo, tornou mais difícil separar o poder empresarial do poder político.
O Banco Mundial descreve esse arranjo com clareza: a burocracia mantinha uma relação próxima com o setor privado, compartilhava riscos por meio do controle do sistema financeiro e das garantias a empréstimos externos, e recompensava empresas bem-sucedidas com acesso preferencial ao crédito. Essa estratégia favoreceu a formação de grandes conglomerados voltados para o comércio exterior .
Uma crítica liberal não deve apagar os méritos econômicos dos chaebols. A industrialização sul-coreana exigiu decisões empresariais difíceis. As empresas precisaram importar tecnologia, formar mão de obra, construir capacidade produtiva e vender em mercados estrangeiros altamente competitivos. O fato de receber crédito ou proteção não elimina automaticamente a necessidade de produzir bens que consumidores estrangeiros aceitassem comprar.
Samsung, Hyundai, LG e SK não foram apenas beneficiárias passivas de políticas públicas. Samsung desenvolveu uma posição de destaque em eletrônicos e semicondutores. Hyundai construiu uma indústria automobilística com presença internacional. LG tornou-se relevante em eletrônicos, química e baterias. SK expandiu-se de sua origem no setor têxtil para energia, telecomunicações e materiais avançados. Em diferentes momentos, cada grupo precisou descobrir oportunidades, assumir riscos e acumular conhecimento empresarial.
Esse aspecto pode ser interpretado pela teoria de Israel Kirzner. Para o economista austríaco, o empreendedor é alguém alerta a oportunidades que outros ainda não perceberam. O lucro surge quando ele identifica diferenças de preços, necessidades não atendidas ou usos mais valiosos para recursos e age antes dos concorrentes. A concorrência, nessa visão, não é um estado final de equilíbrio; é um processo de descoberta .
Os chaebols participaram desse processo quando encontraram oportunidades em exportações, tecnologia e produção em escala. A orientação para o mercado mundial também funcionou como uma forma de disciplina. Uma empresa podia obter apoio doméstico, mas não conseguia obrigar consumidores norte-americanos, europeus ou asiáticos a comprar seus produtos. A competição internacional expunha erros de qualidade, custo e produtividade.
A industrialização, porém, não ocorreu em um ambiente de neutralidade institucional. O governo sul-coreano controlou bancos, taxas de juros, licenças e parte significativa do acesso ao financiamento. O Fundo Monetário Internacional registra que empréstimos de política econômica, crédito para exportação e fundos de investimento nacional foram oferecidos a taxas preferenciais. Em determinado período, os empréstimos subsidiados chegaram a representar aproximadamente metade do crédito doméstico concedido por instituições financeiras .
Durante a promoção das indústrias pesadas e químicas na década de 1970, a intervenção se intensificou. Bancos foram pressionados a financiar setores considerados estratégicos. O Banco Mundial observa que o Estado mobilizou recursos públicos, direcionou empréstimos e ofereceu incentivos fiscais e serviços subsidiados. A política buscava criar empresas capazes de operar em escala internacional, mas também gerou excesso de capacidade, baixos retornos e fragilidade financeira .
O resultado foi contraditório. O crédito barato acelerou o investimento e elevou a produção em setores favorecidos. Contudo, a evidência analisada pelo FMI não encontrou melhora clara na produtividade do capital decorrente do crédito direcionado. Os recursos foram deslocados de setores que poderiam utilizá-los de maneira mais eficiente, enquanto a dívida e os empréstimos problemáticos enfraqueceram os bancos .
Essa diferença é central para uma análise liberal. Crescimento de produção não é sinônimo de alocação eficiente de capital. Um investimento pode aumentar o volume produzido e ainda assim destruir valor quando depende de juros artificialmente baixos, garantias públicas ou proteção contra concorrentes. O cálculo econômico exige que custos e riscos sejam suportados por quem decide, e não transferidos para contribuintes, poupadores ou empresas excluídas do crédito.
É possível reconhecer que a burocracia sul-coreana foi, em vários aspectos, mais profissional e orientada a resultados do que a burocracia de muitos países em desenvolvimento. Metas de exportação, avaliação de desempenho e coordenação de investimentos ajudaram a concentrar esforços em uma estratégia nacional. O Estado não se limitou a proteger empresas indefinidamente: em diversos casos, exigiu resultados externos.
Mas uma burocracia competente continua sendo uma burocracia com poder discricionário. Quando funcionários decidem quem recebe crédito, autorização, proteção ou perdão de dívidas, empresas passam a competir não apenas por consumidores, trabalhadores e investidores. Elas também competem por influência política.
É nesse ponto que a análise austríaca se conecta à escolha pública. Rent-seeking é a tentativa de obter ganhos por meio do processo político, como subsídios, tarifas ou regulações que dificultam a entrada de concorrentes. O custo social não é apenas o valor do privilégio recebido. Inclui os recursos gastos para conquistar, manter e defender esse privilégio .
A definição acadêmica de capitalismo de compadrio é semelhante: trata-se de uma economia em que o sucesso empresarial depende de relações estreitas com agentes do governo, manifestadas em permissões, subvenções, benefícios tributários ou outras formas de intervenção seletiva . Sob esse critério, a proximidade entre chaebols e Estado não é um detalhe secundário. Ela é parte do mecanismo de crescimento dos grupos.
A defesa dos chaebols costuma se apoiar em um argumento real: países com mercado doméstico limitado precisam de empresas capazes de alcançar escala global. Uma indústria automobilística, petroquímica ou de semicondutores exige investimentos elevados, redes de fornecedores, pesquisa e desenvolvimento e capacidade de suportar ciclos longos de aprendizado.
Nesse sentido, o tamanho pode gerar vantagens legítimas. Grandes grupos conseguem diluir custos fixos, financiar laboratórios, manter equipes especializadas e coordenar cadeias produtivas. A diversificação também pode permitir que conhecimentos desenvolvidos em um setor sejam aplicados em outro. O Banco Mundial destaca que a promoção das indústrias pesadas buscava justamente criar capacidade produtiva em escala internacional e orientar a expansão para exportações .
O problema começa quando ganhos de escala são confundidos com uma licença para bloquear a concorrência. Escala não prova que uma empresa deva receber crédito subsidiado. Tampouco justifica barreiras permanentes à entrada, tratamento tributário especial ou tolerância a falhas de governança. A função da concorrência é descobrir se a escala é realmente necessária, qual empresa a alcança com menor custo e quando uma tecnologia ou modelo de negócios deve ser substituído.
Na perspectiva de Kirzner, empresas rivais são importantes porque revelam erros. Um novo entrante pode descobrir uma maneira mais barata de produzir, um produto mais adequado ou uma estrutura organizacional superior. Se o Estado protege os incumbentes, reduz o número de descobertas possíveis e transforma uma vantagem temporária em poder duradouro.
A concentração dos chaebols produz riscos econômicos e políticos. A OCDE reconhece que os grandes grupos tiveram papel central no desenvolvimento coreano, mas alerta que sua dominância cria problemas para produtividade, inclusão e inovação. A organização recomenda melhorar a governança corporativa, proteger acionistas minoritários, eliminar estruturas de participação circular e criar condições mais equilibradas para pequenas empresas e startups .
A questão não é punir o tamanho em si. O foco deve ser a forma pela qual o tamanho é mantido. Uma empresa grande que vence pela produtividade, pela qualidade e pela capacidade de inovar está exercendo empreendedorismo competitivo. Uma empresa grande que usa sua influência para restringir rivais, obter salvamentos ou controlar decisões regulatórias está convertendo poder econômico em poder político.
A crise asiática de 1997 expôs parte desse problema. Antes da crise, bancos haviam emprestado agressivamente aos chaebols para financiar sua expansão em novos setores. O elevado endividamento e a fragilidade das instituições financeiras ampliaram os efeitos do choque externo. O pacote de resgate internacional foi acompanhado por reformas destinadas a aumentar a transparência, reduzir subsídios e reestruturar bancos e empresas .
A captura regulatória também afeta as pequenas e médias empresas. Segundo a análise do Council on Foreign Relations, os grandes conglomerados podem usar seu poder de mercado para pressionar fornecedores, copiar inovações ou comprar empresas menores antes que elas cresçam. Isso é particularmente danoso em uma economia em que as pequenas empresas respondem por parcela importante do emprego .
Há ainda o problema do risco moral. Se executivos acreditam que o governo não permitirá a quebra de um conglomerado considerado “nacional”, eles têm incentivo para assumir mais dívida e expandir mais do que fariam sob responsabilidade integral. O lucro permanece privado, mas parte da perda potencial é socializada. Essa expectativa distorce o cálculo empresarial e enfraquece a disciplina do mercado.
A resposta mais rigorosa é: ambos, mas em proporções e momentos diferentes. Os chaebols foram empreendedores quando descobriram mercados, investiram em conhecimento, elevaram a produtividade e enfrentaram a concorrência internacional. Foram instrumentos de política industrial quando receberam coordenação, crédito e metas do Estado. Tornaram-se agentes de compadrio quando sua proximidade política passou a garantir privilégios, proteção e tolerância a falhas que não estavam disponíveis a seus concorrentes.
Essa distinção impede duas conclusões equivocadas. A primeira seria dizer que todo sucesso dos chaebols foi artificial. Isso ignoraria a capacidade empresarial, o trabalho, a inovação e a disciplina das exportações. A segunda seria tratar o modelo como prova de que governos conseguem escolher sistematicamente vencedores. Os custos do crédito direcionado, os investimentos excessivos e a fragilidade financeira mostram que a seleção estatal também produz erros — e que seus erros podem ser grandes demais para serem corrigidos rapidamente.
A lição liberal não é que o governo deva ser incapaz de fazer qualquer coisa. Infraestrutura, educação básica, estabilidade monetária, proteção jurídica e abertura comercial podem ampliar o campo de ação dos empreendedores. A lição é que o Estado deve criar regras gerais, transparentes e contestáveis, e não distribuir privilégios caso a caso. Deve permitir que empresas falhem, inclusive quando são grandes e politicamente importantes.
Para a Coreia do Sul, a agenda coerente seria fortalecer a concorrência, reduzir barreiras de entrada, eliminar subsídios seletivos, aperfeiçoar a governança corporativa, proteger acionistas minoritários e impedir que conexões políticas determinem o acesso a crédito ou contratos. O objetivo não precisa ser destruir Samsung, Hyundai, LG ou SK. Deve ser garantir que seu sucesso dependa cada vez mais de consumidores e investidores, e cada vez menos de favores oficiais.
O caso dos chaebols mostra, portanto, que industrialização acelerada e liberalismo não são sinônimos. Uma economia pode enriquecer com empresas privadas e, ao mesmo tempo, conservar mecanismos de capitalismo de compadrio. O verdadeiro empreendedorismo nacional não nasce da fusão entre governo e grandes grupos. Nasce quando o processo de descoberta empresarial permanece aberto a novos concorrentes, quando o lucro recompensa o valor criado e quando a perda não é transferida para toda a sociedade.

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