
Existe uma Buenos Aires que está apenas na memória dos que a conheceram antes do seu longo crepúsculo econômico. Uma cidade onde os cafés da Avenida Corrientes exalavam a confiança de uma próspera classe média, onde os tangos falavam de amores perdidos, não de salários evaporados. Essa Buenos Aires morreu tantas vezes, na hiperinflação de 1989 que devorava preços hora a hora, no confisco do Plan Bonex que sequestrou poupanças da noite para o dia, no corralito de 2001 que transformou bancos em cofres lacrados, que seus habitantes desenvolveram uma estranha familiaridade com o colapso. Aprenderam a ler nos olhos dos vizinhos a mesma angústia silenciosa: quanto vale meu trabalho hoje? Quanto valerá amanhã?
E no entanto, seguiam vivendo. Caminhar por Palermo ou San Telmo nos últimos anos da era kirchnerista era testemunhar o paradoxo de uma nação que insistia em sorrir enquanto afundava. Os preços nos cardápios eram escritos a lápis, porque a tinta não acompanhava a velocidade da moeda em decomposição. A inflação não era apenas um índice; era uma presença física, um ladrão invisível que esvaziava os bolsos no trajeto entre o banco e a padaria. O peso argentino tornou-se uma promessa que o Estado fazia, mesmo sabendo que não a cumpriria.
Foi nesse cenário de ruína que emergiu uma figura improvável: Javier Milei! Ele não chegou ao poder pela porta dos fundos da política tradicional. Veio do lado de fora, com cabelos desalinhados e uma motosserra nas mãos. Os bem-pensantes riram, os tecnocratas torceram o nariz, os populistas de esquerda e direita uniram-se na certeza de que aquele economista histriônico seria devorado pelo sistema antes de completar cem dias. Erraram todos.
O que aconteceu na Argentina a partir de dezembro de 2023 desafia os manuais que pregam reformas graduais. Milei ignorou esse roteiro, cortou ministérios pela metade, demitiu dezenas de milhares de funcionários públicos. Eliminou subsídios que há gerações distorciam preços. Extinguiu a emissão monetária como instrumento de financiamento do déficit. Fez, em semanas, o que os governos anteriores juravam ser impossível em mandatos inteiros.
A reação foi previsível: Os mesmos que durante décadas administraram a decadência acusaram Milei de crueldade. Inclusive, falaram em “ajuste sobre os pobres”, em “neoliberalismo selvagem”. A retórica era conhecida, a mesma que justificou cada emissão de moeda, cada expansão de um aparato estatal que engordava enquanto a sociedade definhava.
Mas o que é crueldade? Devemos ver não apenas o que se vê, mas também o que não se vê à primeira vista. O que se via no modelo anterior era o emprego público garantido, o subsídio que barateava a conta de luz. O que não se via era a conta sendo paga, silenciosamente, por cada argentino que guardava dinheiro. A inflação é o imposto mais covarde já inventado. Não passa por parlamentos, não aparece em contracheques, subtraindo invisivelmente, dia após dia, as economias de uma vida.
Chamar de crueldade o fim dessa pilhagem é inverter a moral de ponta-cabeça. A verdadeira violência contra os pobres não está no corte de gastos; está na impressão de dinheiro que transforma o salário mínimo em ficção antes do fim do mês. Acreditar que burocratas sabem mais do que a sociedade é um erro crasso. A Argentina foi a maior vítima desse experimento de engenharia social por décadas. O resultado está nos livros de história e nos rostos cansados de três gerações.
Milei diagnosticou o que a velha guarda negava: uma nação onde a inflação devorava 211% ao ano, onde quase metade da população já vivia na pobreza e onde o Banco Central operava com reservas negativas não sobreviveria a mais uma dose de gradualismo. Diante de uma necrose tão avançada, remédios caseiros são uma sentença de morte. A radicalidade de seus cortes não é crueldade, é uma cirurgia de emergência. O processo é traumático e a dor é real, mas era isso ou assistir ao falecimento definitivo da economia.
Um ano depois, os números falam uma linguagem que os críticos preferem não ouvir. A inflação mensal, que ultrapassou vinte e cinco por cento, despencou para menos de três. O déficit fiscal foi estancado. O superávit primário retornou pela primeira vez em mais de uma década. A economia começa a mostrar sinais de estabilização. Nenhum milagre, apenas a confirmação de que a teoria econômica funciona quando aplicada sem medo.
Já por aqui, o Brasil dobra a aposta no atraso. Enquanto Buenos Aires amputa o excesso para salvar o corpo, Brasília ocupa-se em inventar rubricas criativas para driblar tetos de gastos e expandir programas que, por mais bem-intencionados, alguém terá de pagar. O Estado brasileiro agigantou-se como um organismo parasitário que drena a vitalidade da nação. Sua presença é asfixiante, infiltrando-se em cada setor para taxar e controlar, sempre privilegiando corporações e sindicatos em detrimento do cidadão comum.
No Brasil, o rombo nas contas públicas têm sempre o mesmo remédio: exprimir mais o contribuinte. A ideia de reduzir gastos é tabu. A lógica é a de tentar encher um balde furado abrindo mais a torneira: ignora-se o vazamento estrutural e culpa-se a falta de água. É a eterna corrida do cachorro atrás do próprio rabo: muito movimento, muita agitação, mas zero progresso.
A Argentina aceitou o remédio amargo. O Brasil prefere a aspirina. Acontece que não se trata de dor de cabeça; trata-se de um tumor. E tumores não respondem a analgésicos.
Há algo de trágico nessa miopia. Somos um país de potencial quase obsceno. Terras férteis, clima favorável, população jovem, recursos naturais em abundância. Poderíamos ser a potência que nossos avós sonharam. Em vez disso, ocupamos décadas discutindo como repartir um bolo que nunca cresce o suficiente.
O Brasil observa o vizinho de longe, com o olhar de quem torce para que o experimento fracasse. Se Milei der certo, fica difícil explicar por que nós não fizemos o mesmo. Melhor que o vizinho tropece, para podermos continuar afirmando que “aqui é diferente”, que “não dá para comparar”.
O que se pode importar da Argentina não são políticas específicas, mas a coragem. A disposição de dizer verdades impopulares. A recusa em administrar a decadência apenas para garantir a reeleição. A compreensão de que o Estado não é solução para todos os problemas; frequentemente, é a causa de muitos deles.
A Argentina de Milei não é um paraíso. A pobreza ainda assola milhões. O caminho será longo. Mas há uma diferença fundamental entre caminhar na direção certa, mesmo com dificuldade, e correr alegremente rumo ao precipício. Buenos Aires escolheu a primeira opção. Brasília, por enquanto, insiste na segunda.
Talvez, em algum momento, olhemos para o espelho platino e reconheçamos nosso próprio reflexo. Talvez a coragem atravesse o rio e penetre nosso debate público. Talvez deixemos de tratar a palavra “corte” como blasfêmia e passemos a enxergá-la como responsabilidade com as gerações futuras. Cabe a cada um de nós decidir: seguiremos aplaudindo políticos que prometem o impossível, ou exigiremos a verdade, mesmo quando ela dói? A Argentina fez sua escolha. E nós?
Até lá, restam as lições do vizinho. A motosserra está ali, visível, barulhenta, eficaz. Basta querer olhar.

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