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 Daniela Lima: A Saída da Globo e o Debate sobre o Jornalismo Engajado

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A saída de Daniela Lima da GloboNews, em agosto de 2025, e sua subsequente contratação pelo UOL, reacendeu um debate que há tempos ronda a imprensa brasileira: o limite entre jornalismo e militância. O caso vai muito além de uma simples troca de emissora. Ele simboliza a crise de identidade de um setor que, ao se apresentar como guardião da democracia e da pluralidade, muitas vezes se mostra intolerante à discordância e incapaz de suportar a crítica.

Na entrevista concedida ao UOL logo após o desligamento, Daniela afirmou que sua saída fazia parte de uma “mudança editorial” da GloboNews. O tom da conversa, no entanto, revelou mais do que a transição profissional de uma jornalista: expôs o estado emocional e político de parte da imprensa brasileira. Ao longo da entrevista, Daniela apresentou-se como vítima de perseguição e de “ataques pessoais” promovidos por detratores nas redes, sem distinguir entre críticas legítimas à sua conduta jornalística e manifestações de ódio. Essa confusão — entre ser criticado e ser censurado — é o ponto central da crise de credibilidade da mídia.

A função essencial da imprensa, numa democracia liberal, é fiscalizar o poder, questionar narrativas e permitir que a sociedade forme seus próprios juízos com base em informações verificáveis. Mas essa missão se enfraquece quando jornalistas passam a se enxergar como protagonistas morais de uma cruzada ideológica. Ao adotar causas políticas como se fossem princípios universais, o jornalismo engajado perde o equilíbrio e transforma o contraditório em inimigo.

A hipocrisia torna-se evidente quando aqueles que se dizem defensores da liberdade de expressão reagem de forma agressiva à mera discordância. Daniela Lima, que frequentemente reivindicava o debate democrático e o respeito às diferenças, demonstrou o oposto ao encerrar os comentários em sua despedida da GloboNews. O gesto foi simbólico: um jornalismo que cobra transparência dos outros, mas evita o próprio escrutínio. Em um ambiente onde o questionamento é visto como ofensa, a crítica se torna um tabu — e o jornalismo, um dogma.

O problema não é exclusivo da jornalista, mas de uma geração de comunicadores que confunde autoridade moral com autoridade profissional. Ao invés de compreender a crítica como parte natural do ofício, trata-a como uma ameaça pessoal. Esse vitimismo retórico corrói a própria ideia de imprensa livre. A liberdade de expressão só tem sentido se for universal — e isso inclui o direito de criticar jornalistas, assim como jornalistas criticam políticos, juízes ou empresários. A lógica liberal é clara: quem fala em nome da liberdade deve ser o primeiro a aceitá-la por inteiro, inclusive quando ela se volta contra si.

A entrevista ao UOL também evidenciou um discurso cada vez mais comum no jornalismo brasileiro: o de que toda crítica à imprensa seria, de alguma forma, um ataque à democracia. Essa associação é perigosa e intelectualmente desonesta. A democracia se fortalece quando há espaço para questionar, discordar e até ironizar o poder — inclusive o poder da mídia. Nenhum setor da sociedade é imune à crítica, e pretender imunidade em nome da “responsabilidade social” é flertar com o autoritarismo.

Daniela Lima é uma jornalista experiente e talentosa, mas o episódio de sua saída revela algo mais profundo: a dificuldade de muitos comunicadores em aceitar que a confiança do público não é garantida por reputação ou cargo, mas conquistada diariamente pela coerência e pela transparência. Quando o público percebe que o jornalista defende a diversidade apenas enquanto ela lhe é favorável, a credibilidade se desfaz.

O liberalismo clássico, de Tocqueville a Hayek, sempre alertou que a imprensa livre só cumpre seu papel quando se mantém autônoma em relação a qualquer poder — inclusive o da própria classe jornalística. A verdade não é monopólio de um grupo nem bandeira de um partido. O jornalismo que se compromete com causas antes de se comprometer com fatos deixa de servir à sociedade e passa a servir à sua própria narrativa.

A lição que emerge do caso Daniela Lima é clara: a liberdade de imprensa não é um privilégio, mas uma responsabilidade. E responsabilidade implica suportar o peso da crítica, aceitar o contraditório e reconhecer que, em uma democracia madura, ninguém está acima do debate público — nem políticos, nem juízes, nem jornalistas.

Quando o jornalismo se protege da crítica sob o pretexto de combater o ódio, ele renuncia ao seu papel essencial: o de promover o confronto saudável de ideias. O público não pede infalibilidade da imprensa, mas honestidade intelectual. Daniela Lima poderia ter transformado sua saída em uma oportunidade de reflexão sobre o próprio ofício. Em vez disso, preferiu se refugiar no discurso confortável da vítima, reforçando a impressão de que parte da imprensa brasileira desaprendeu a escutar.

O desafio que se impõe, portanto, não é apenas individual, mas estrutural. O jornalismo brasileiro precisa escolher se quer continuar agindo como uma casta moral que não admite contestação ou se pretende reconquistar sua relevância como mediador do debate público. A democracia não precisa de jornalistas perfeitos, mas de jornalistas dispostos a duvidar de si mesmos — e a reconhecer que a liberdade só é plena quando vale também para quem pensa diferente.

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Juliana Antonelli

É uma defensora da liberdade e acredita que este é o único caminho para a construção de uma sociedade verdadeiramente livre e próspera. Atualmente e formada em Direito. Nas horas vagas, adora debater política, conhecer novos lugares, livros e escrita.

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