
Hoje, diversos “especialistas” se apresentam como donos da verdade, convencidos de que sabem quais problemas merecem prioridade e quais soluções devem ser impostas à sociedade. Há décadas, repetem-se previsões apocalípticas sobre o derretimento das calotas e o fim das cidades costeiras — sempre “em 15 ou 20 anos”. Curiosamente, o prazo nunca chega.
O padrão é previsível: anuncia-se uma crise; os “ungidos”, então, oferecem soluções — invariavelmente, soluções estatais. Depois, surgem consequências negativas das medidas implementadas. Por fim, os críticos da solução apresentada são tachados de “negacionistas” e os ungidos dizem que o defeito da implementação foi não ter feito o bastante.
Esse modus operandi não é novo. Ele foi identificado em 1995, por Thomas Sowell, em The Vision of the Anointed. Ele já havia percebido o problema com programas de habitação, políticas de redução de criminalidade e planos de educação progressista.
Muitas dessas políticas públicas estavam relacionadas às pautas raciais. Sowell mostrou que, até os anos 1960, as comunidades negras americanas avançavam social e economicamente — até que as políticas de “justiça social” passaram a interferir. Nessa época, houve os movimentos dos direitos civis que, por um lado, acabaram com a segregação racial. Por outro, esses movimentos permitiram que os políticos identificassem uma demanda por programas sociais. Paradoxalmente, os dados da população negra passaram a apresentar estagnação.
Sowell, utilizando princípios de economia básica, percebeu o que ocorria.O governo, movido por boas intenções, criou programas de auxílio a mães solteiras. No entanto, ao subsidiar determinadas condições de vida, acabou incentivando-as — um exemplo clássico de política que produz o oposto do que promete. Seu colega de Chicago, Milton Friedman, também percebeu que há algo de contraprodutivo em um ambiente que tem imposto de renda e seguro-desemprego. Isso significa que o trabalho é penalizado com tributos, enquanto o não-trabalho é recompensado.
Mas é perfeitamente possível sair da esfera econômica e do ambiente americano. No Brasil, por exemplo, muitos governadores, durante a pandemia, demonstraram grande ânsia por mostrar que estavam fazendo alguma coisa – qualquer coisa. Uma das medidas mais emblemáticas foi a redução arbitrária do horário de funcionamento de estabelecimentos essenciais, como supermercados. O problema é que supermercados não são uma opção, mas uma necessidade. Pessoas que iam às 10 horas da noite, por exemplo, quando já havia pouca gente no supermercado, passaram a ter de ir às 6h ou 7h, quando a densidade de pessoas no recinto era muito maior. O exato oposto do tal “distanciamento social”.
Quem ousava questionar tais medidas era imediatamente rotulado de “negacionista” — um rótulo útil para silenciar o debate público. Como se quem critica negasse que a Covid-19 é um problema sério. Como se a crítica não fosse à medida adotada e às suas consequências contraprodutivas.
Aliás, até o começo de abril de 2020, a OMS dizia que máscaras não funcionavam. Vários jornais do Brasil usavam isso para realizar reportagens com “especialistas” que repetiam o que a OMS dizia e concluíam que era melhor não sair de casa. Depois, a OMS mudou de ideia e a mesma imprensa passou a chamar outros “especialistas” que, agora, afirmavam que máscaras funcionavam, como se fosse uma verdade sabida de milênios.
Outro caso de epidemia no Brasil foi o da peste bubônica, no começo do século XX. O cientista Oswaldo Cruz propôs uma medida ao governo: pagar as pessoas por ratos caçados. A princípio, parecia uma política de incentivos correta. O que aconteceu, no entanto, foi uma proliferação da criação de ratos nos quintais, como pequenas fazendas, para poder vender ao governo os ratos supostamente caçados. Cruz era um médico brilhante, mas não um formulador de políticas. Ser especialista em um campo técnico não o torna apto a decidir pelos demais — um erro recorrente nas democracias centralizadas.
Além disso, para arejar a cidade do Rio de Janeiro, ele recomendou às autoridades demolir casarões e cortiços onde viviam famílias pobres. A população começou a se tornar cada vez mais antipática a suas medidas. O estopim de um princípio de guerra civil foi quando ele propôs obrigar a população a tomar vacinas. Surgiu, então, a Revolta da Vacina — uma reação popular à coerção estatal — que, em intensidade, superou muitos protestos modernos.
No âmbito internacional, a União Europeia tem procurado impor datas limite para a completa proibição dos carros a combustão. Quando alguém critica a medida, é um “negacionista das mudanças climáticas” da mesma forma que quem critica as políticas de lockdown e de obrigatoriedade de máscaras. O problema para os “ungidos” é que estudos independentes indicam que a produção de carros elétricos gera mais emissões que os veículos a combustão — uma contradição conveniente de se ignorar. A necessidade de minerar certos metais leva a uma grande emissão de CO2 que, por algum motivo, os formuladores de políticas ambientais ignoram.
Sowell compara sua visão com a dos ungidos. Eles teriam uma visão utópica. Eles olham para as próprias soluções que propõem e parecem não perceber que haverá consequências negativas. Para Sowell, não há soluções perfeitas — apenas trade-offs. Essa é a chamada “visão trágica”, que reconhece os limites do planejamento humano e valoriza a liberdade individual. ”. Nesse ponto, é necessário discordar: essa visão é a de quem não acredita em “salvadores” com suas “soluções centralizadas”. É a defesa da descentralização: das soluções que emergem da sociedade para o Estado — e não o contrário. Em outras palavras, o eterno embate entre o “bottom-up” e o “top-down”.
Não foram políticas públicas as responsáveis pela Revolução Verde, que multiplicou em várias vezes a produção de alimentos, livrando a humanidade da Armadilha Malthusiana. Foi o trabalho descentralizado de homens como Fritz Haber e Norman Borlaug. Diversas invenções foram descobertas pelo acaso, possibilitadas pela tentativa e erro de cientistas curiosos; não de políticos com regras prontas. Por que não há nada mais anti-científico do que aceitar prontamente regras de autoridades que dizem estar baseadas em ciência.

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