
Como observador atento das dinâmicas econômicas brasileiras, vejo na recente liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central (BC) não apenas um escândalo financeiro isolado, mas um sintoma profundo das falhas estruturais em nossa governança corporativa e regulatória. Desencadeada por um esquema de fraudes envolvendo a emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) irreais e a fabricação de carteiras de crédito falsas , essa tragédia expõe as contradições entre o ideal liberal de um mercado livre e a realidade de um Estado intervencionista que, paradoxalmente, incentiva irresponsabilidades. Para mim, como defensor do liberalismo econômico, este evento é uma oportunidade para refletir sobre como a ausência de responsabilidade individual e a presença excessiva do Estado criam um ciclo vicioso de risco moral, onde os custos da ganância são socializados, enquanto os benefícios permanecem privados. Vamos desbravar esse dilema, argumentando que a solução não está em mais regulação, mas em menos intervenção paternalista e mais ênfase na disciplina do mercado.
O liberalismo econômico, inspirado em pensadores como Friedrich Hayek e Milton Friedman, repousa sobre pilares como a confiança, a transparência e a responsabilidade individual. A fraude no Banco Master revelada pela investigação da Polícia Federal, que levou à prisão do presidente e diretores por gestão fraudulenta, falsidade documental e lavagem de dinheiro é a antítese desse sistema. Não se trata de uma falha inerente ao capitalismo, mas de uma violação deliberada das regras do jogo. Em um mercado verdadeiramente livre, os agentes econômicos prosperam através de transações voluntárias e informadas, onde a reputação e a diligência são as verdadeiras moedas de troca. Quando um banco como o Master “fabrica” ativos inexistentes para inflar balanços e atrair investidores, ele distorce a alocação de capital, prejudicando não apenas os poupadores, mas toda a economia.
Imagine: pequenos investidores, confiando na suposta solidez do banco, depositam suas economias em CDBs que, na verdade, são promessas vazias. Isso não é inovação financeira, mas roubo institucionalizado. A intervenção do Estado aqui é legítima — não para subsidiar falências, mas para aplicar a lei com rigor. A prisão dos envolvidos é um passo necessário para restaurar a confiança, mas o verdadeiro problema é que tais fraudes prosperam em ambientes onde a fiscalização é insuficiente ou mal direcionada. Como liberal, defendo que o mercado deve punir a irresponsabilidade através da falência natural, sem resgates estatais. O caso Master lembra crises passadas, como a do Banco Barings em 1995, onde fraudes individuais levaram à ruína de uma instituição centenária, provando que o livre mercado, quando não adulterado, corrige-se sozinho.
O Banco Central, como guardião da estabilidade financeira, tem um papel crucial, mas limitado. A perspectiva liberal não clama por anarquia regulatória; ao contrário, advoga por uma regulação mínima, clara e previsível, focada em promover a transparência e combater fraudes, sem sufocar a competição. No caso do Banco Master, parece haver falhas na detecção precoce do esquema fraudulento, permitindo que a irresponsabilidade se espalhasse. Relatórios indicam que o banco operava com carteiras de crédito “falsas”, inflando ativos para parecer solvente. Isso sugere que o BC poderia ter sido mais vigilante, mas também destaca os perigos da regulação excessiva: burocracias complexas criam brechas para os espertos, enquanto oneram os honestos.
Em um sistema liberal ideal, a regulação deveria priorizar a divulgação obrigatória de informações financeiras detalhadas, permitindo que investidores e concorrentes exerçam sua própria diligência. Pense nos Estados Unidos, onde a Lei Sarbanes-Oxley de 2002, após o escândalo Enron, aumentou a transparência sem paralisar o mercado. No Brasil, porém, a regulação muitas vezes se transforma em um labirinto de normas que favorecem grandes players e inibem a entrada de novos bancos. A lição do Master é que devemos focar na punição exemplar como as prisões já ocorridas para dissuadir futuros fraudadores, em vez de criar mais camadas de controle que apenas deslocam o problema. O liberalismo ensina que a prevenção vem da responsabilidade individual, não de um Estado onipresente.
Aqui chegamos ao coração do dilema liberal: o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Criado para proteger o pequeno poupador, cobrindo depósitos até R$ 250 mil , o FGC é uma ferramenta socialmente valiosa em teoria, mas um convite ao desastre na prática. Ele introduz o chamado “risco moral” (moral hazard), onde gestores de bancos sabem que perdas serão cobertas pelo fundo financiado pelos próprios bancos, mas com respaldo estatal implícito. Isso incentiva comportamentos arriscados: por que ser cauteloso se o Estado (ou o fundo) pagará a conta?
No caso do Banco Master, a liquidação extrajudicial significa que investidores acima do limite do FGC podem perder tudo, enquanto os menores são protegidos. Isso é justo? Do ponto de vista liberal, parcialmente sim, pois mantém a disciplina para grandes investidores. Mas o risco moral persiste: bancos menores, cientes da proteção, podem buscar retornos altos com estratégias especulativas, socializando custos em caso de falha. Compare com a crise de 2008 nos EUA, onde o resgate do governo a instituições “grandes demais para falir” criou um precedente perigoso, levando a mais irresponsabilidades. No Brasil, o FGC, embora privado, opera sob a sombra do BC, reforçando a percepção de um “backstop” estatal. A solução liberal? Limitar ou eliminar tais garantias para pequenos bancos, incentivando a competição e a responsabilidade plena. Sem o FGC, os gestores pensariam duas vezes antes de fraudar, sabendo que a falência seria total e pessoal.
O caso Master não é único; ecoa escândalos globais que reforçam argumentos liberais. Na Itália, o colapso do Banco Monte dei Paschi di Siena em 2017, devido a fraudes e más gestões, levou a resgates estatais custosos, exacerbando o risco moral na zona do euro. No Reino Unido, a crise do Northern Rock em 2007 mostrou como garantias implícitas do governo incentivam corridas bancárias e irresponsabilidades. Esses exemplos ilustram que intervenções estatais, embora bem-intencionadas, criam dependências e distorções. No Brasil, onde o sistema financeiro é dominado por poucos grandes bancos, o paternalismo estatal agrava desigualdades, protegendo os poderosos enquanto pune os pequenos. A lição liberal é clara: menos garantias, mais competição e transparência radical para que o mercado se autorregule.
Em resumo, a liquidação do Banco Master não é uma falha do livre mercado, mas uma tragédia da governança deficiente e do risco moral induzido pelo Estado. Como liberal convicto, acredito que a solidez financeira se constrói com responsabilidade individual, transparência e punição implacável contra fraudes, não com resgates ou regulações excessivas. O Estado deve ser o árbitro das regras, garantindo justiça, mas não um jogador que socializa perdas. Se aprendermos com o Master, reduzindo o papel do FGC e simplificando a regulação, poderemos evitar futuras crises. Em um Brasil onde o populismo econômico ganha força, essa lição é urgente: o verdadeiro progresso vem de um mercado livre, onde a ganância é punida, e a inovação é recompensada. Caso contrário, continuaremos pagando o preço de um sistema paternalista que incentiva a irresponsabilidade.

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