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Brasil e Coreia do Sul: duas estratégias de desenvolvimento

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A comparação entre Brasil e Coreia do Sul é útil porque os dois países partiram, em meados do século XX, de níveis relativamente baixos de renda e enfrentaram o desafio de construir uma base industrial. O resultado, porém, foi bastante diferente. A Coreia do Sul transformou-se em uma economia de alta renda, integrada às cadeias globais e intensiva em tecnologia. O Brasil criou uma indústria diversificada e obteve períodos de crescimento acelerado, mas não conseguiu sustentar ganhos semelhantes de produtividade e inovação.

A tese central deste artigo é que a diferença não pode ser explicada apenas pelo tamanho do território, pela dotação de recursos naturais ou por uma suposta superioridade cultural. Ela está relacionada aos incentivos produzidos pelas estratégias de desenvolvimento. Enquanto o Brasil permaneceu por décadas preso a uma industrialização protegida e voltada ao mercado interno, a Coreia do Sul utilizou o Estado para coordenar investimentos, mas submeteu suas empresas à disciplina das exportações, da concorrência e da necessidade de alcançar padrões internacionais.

A industrialização brasileira foi fortemente influenciada pela substituição de importações. O objetivo era reduzir a dependência de produtos estrangeiros por meio de tarifas elevadas, barreiras não tarifárias, reservas de mercado e estímulos a empresas nacionais. Essa estratégia teve méritos. Ela ajudou a criar capacidades industriais em um país que ainda tinha pouca infraestrutura produtiva e um mercado de capitais pouco desenvolvido.

O problema foi a duração e o desenho dos incentivos. Em muitos setores, a proteção deixou de ser uma etapa temporária e passou a funcionar como uma barreira contra a concorrência. Empresas protegidas podiam sobreviver sem atingir a produtividade, a qualidade e o custo exigidos no mercado mundial. O consumidor pagava mais, a inovação avançava lentamente e os recursos eram direcionados para atividades com maior capacidade de obter proteção política.

Um estudo do Ipea sobre 16 setores da indústria de transformação encontrou evidências de que a produtividade brasileira ficou estagnada entre 1985 e 1990 e cresceu de modo significativo depois de 1990, quando o país iniciou a redução de tarifas e de barreiras não tarifárias. O trabalho concluiu que a abertura comercial teve efeito positivo sobre a produtividade e que maiores barreiras comerciais estavam associadas a taxas menores de crescimento da produtividade do trabalho e da produtividade total dos fatores .

Isso não significa que toda abertura seja automaticamente benéfica ou que a política industrial seja sempre inútil. Significa que uma política que protege empresas sem exigir resultados tende a preservar ineficiências. O Estado pode apoiar pesquisa, infraestrutura e qualificação, mas tem dificuldade para escolher, de forma permanente, quais firmas e tecnologias devem vencer. A concorrência, inclusive a concorrência estrangeira, fornece um teste mais rigoroso.

A experiência sul-coreana foi mais complexa do que a narrativa de um mercado completamente livre. O governo teve papel ativo no crédito, na infraestrutura, na educação e na coordenação industrial. Grandes conglomerados receberam apoio e foram estimulados a entrar em setores mais sofisticados. Contudo, o apoio estava ligado a metas de desempenho, sobretudo à capacidade de exportar e competir em mercados externos.

Essa diferença alterou os incentivos. Uma empresa que vendia apenas no mercado doméstico podia sobreviver atrás de tarifas. Uma empresa coreana que precisava exportar tinha de atender padrões internacionais de preço, qualidade, prazo e tecnologia. O fracasso não era apenas uma perda de participação de mercado: podia significar a retirada de crédito e de apoio estatal. A intervenção, portanto, não eliminava a disciplina competitiva; em parte, procurava organizá-la.

O Banco Mundial descreve a trajetória coreana como uma transição de um modelo baseado em grandes empresas e setores específicos para um paradigma mais orientado pelo setor privado, pela competição, pela inovação e pela tecnologia. O mesmo estudo destaca a integração em cadeias globais de valor, o investimento em capital humano e a adaptação institucional como elementos da passagem da renda média para a renda alta .

A lição liberal não é que o governo coreano tenha sido ausente. É que o apoio público foi mais produtivo quando esteve associado a resultados observáveis e à exposição internacional. A diferença entre coordenação temporária e proteção permanente é decisiva. A primeira pode ajudar a construir capacidades; a segunda pode transformar empresas em dependentes de favores.

A política cambial também influenciou as duas trajetórias. A Coreia do Sul tratou as exportações como prioridade nacional e procurou evitar que a taxa de câmbio destruísse a competitividade externa de sua indústria. O Brasil, por sua vez, alternou períodos de câmbio administrado, crises externas, inflação elevada, valorização cambial e desvalorizações abruptas. Essa instabilidade dificultou o planejamento de longo prazo e tornou a proteção tarifária ainda mais atraente para setores que não conseguiam competir.

Há, contudo, um cuidado necessário. Um câmbio desvalorizado não cria produtividade por si só. Ele pode ampliar temporariamente a receita dos exportadores, mas, se não vier acompanhado de investimento, educação, infraestrutura e estabilidade macroeconômica, apenas encarece máquinas e insumos importados. O ponto central é que o câmbio deve permitir que empresas eficientes se integrem ao comércio internacional, não servir como substituto permanente para reformas estruturais.

O tamanho do mercado brasileiro também produziu um efeito ambíguo. Um mercado interno grande é uma vantagem: oferece escala e permite que empresas testem produtos. Mas ele pode reduzir a urgência de exportar. Na Coreia do Sul, o mercado doméstico menor tornou a integração externa uma necessidade mais evidente. O país precisou vender ao mundo para alcançar escala. No Brasil, muitas empresas puderam permanecer voltadas ao mercado interno, mesmo quando seus custos e padrões tecnológicos ficavam distantes dos concorrentes globais.

A educação foi outro divisor de águas. A OCDE registra que os avanços educacionais contribuíram para o crescimento coreano durante mais de seis décadas. Em 1960, a taxa de alfabetização sul-coreana já era elevada em comparação com países de baixa renda; atualmente, 71% dos jovens de 25 a 34 anos concluíram o ensino superior, a maior proporção entre os países da OCDE . A mesma fonte ressalta que a educação, a abertura comercial, a estabilidade macroeconômica, a acumulação de capital e a absorção tecnológica atuaram conjuntamente.

O número de diplomas, por si só, não garante produtividade. A própria OCDE aponta desafios atuais na Coreia, como a deterioração de habilidades com a idade, o excesso de competição por universidades de elite e a necessidade de aproximar a formação das competências demandadas pelas empresas . Ainda assim, a experiência mostra que uma economia que pretende inovar precisa construir uma base ampla de matemática, ciências, leitura, formação técnica e aprendizagem contínua.

A inovação também depende do ambiente em que o conhecimento é utilizado. A OCDE define o gasto doméstico bruto em pesquisa e desenvolvimento como o conjunto de despesas públicas, empresariais, universitárias e institucionais realizadas para produzir conhecimento e novas aplicações . A Coreia conseguiu aproximar pesquisa, indústria e exportações tecnológicas em uma escala que o Brasil ainda não alcançou. O Brasil possui competências relevantes em agricultura, energia, aeronáutica e outros segmentos, mas essas ilhas de excelência convivem com baixa produtividade média e pouca difusão tecnológica entre pequenas e médias empresas.

O desafio brasileiro, portanto, não é simplesmente gastar mais em ciência. É criar condições para que a pesquisa se converta em empresas, produtos, patentes, serviços e empregos. Isso exige menos barreiras à entrada, crédito mais acessível para firmas produtivas, regras tributárias compreensíveis e maior conexão entre universidades e setor privado.

A produtividade não depende apenas da fábrica. Ela depende da qualidade das estradas, dos portos, da energia, da internet, do sistema tributário e da previsibilidade das regras. Uma empresa pode ter bons engenheiros e ainda assim perder competitividade se enfrentar atrasos logísticos, custos elevados e mudanças frequentes de regulação.

A comparação com a Coreia do Sul mostra a importância de tratar infraestrutura e segurança jurídica como parte da política de desenvolvimento, e não como favores concedidos a setores escolhidos. O investimento público pode ser necessário, sobretudo em infraestrutura de base, mas deve ser acompanhado de avaliação, transparência e abertura à participação privada quando houver condições de concorrência. O objetivo deve ser reduzir o custo de produzir e empreender, e não ampliar o número de autorizações e subsídios.

A segurança jurídica é igualmente importante. Investidores de longo prazo precisam saber como contratos serão interpretados, como tributos serão cobrados e quais regras serão aplicadas. Sem previsibilidade, o capital busca proteção, encurta seus horizontes e prefere atividades de retorno rápido. Com previsibilidade, aumenta a chance de investimento em máquinas, treinamento, pesquisa e relações duradouras com fornecedores.

Brasil e Coreia do Sul estabeleceram relações diplomáticas em 1959. Segundo o Itamaraty, o comércio bilateral chegou a US$ 10,5 bilhões em 2023, e os dois países mantêm mecanismos de diálogo em comércio, ciência e tecnologia, agricultura, energia e recursos minerais . Há, portanto, uma base concreta para uma agenda econômica mais ambiciosa.

Essa agenda deveria priorizar a liberdade de comércio, a cooperação tecnológica e a segurança para investimentos. Um acordo comercial entre o Mercosul e a Coreia do Sul poderia ampliar o acesso a bens de capital, componentes, tecnologias e mercados, desde que venha acompanhado de regras claras e de um cronograma crível de redução de barreiras. A concorrência coreana pode pressionar empresas brasileiras, mas também pode reduzir custos, acelerar a modernização e criar oportunidades de integração em cadeias produtivas.

A cooperação não precisa reproduzir o modelo coreano nem transformar o Brasil em uma economia de conglomerados. O Brasil tem escala, recursos naturais, capacidade agrícola, matriz energética relevante e instituições científicas importantes. O que falta é combinar essas vantagens com mais concorrência, maior previsibilidade e uma inserção externa menos defensiva.

A principal lição da Coreia do Sul é que desenvolvimento não nasce de proteger empresas da realidade. Ele nasce de criar condições para que pessoas e empresas aprendam, invistam, inovem e sejam avaliadas por resultados. Um Estado capaz de oferecer educação, infraestrutura, segurança jurídica e regras estáveis pode ser decisivo. Um Estado que escolhe vencedores, fecha o mercado e distribui proteção sem prazo tende a preservar perdedores.

Para o Brasil, seguir adiante significa trocar a ambição de autossuficiência pela ambição de competitividade. A liberdade econômica não é a ausência de política de desenvolvimento. É a escolha de uma política em que o sucesso dependa menos de proximidade com o governo e mais da capacidade de produzir valor para consumidores no Brasil e no mundo.

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Juliana Antonelli

É uma defensora da liberdade e acredita que este é o único caminho para a construção de uma sociedade verdadeiramente livre e próspera. Atualmente e formada em Direito. Nas horas vagas, adora debater política, conhecer novos lugares, livros e escrita.

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